Senna

Caloni, November 26, 2010

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De que são feitos os heróis? Como uma pessoa cresce internamente e transparece externamente, para o resto do mundo, como alguém que faz a diferença; tanto profissional, quanto moralmente?

Uma trajetória de sucesso de um dos ícones de final de século no esporte nacional e mundial, o que vemos no início do documentário é um ser humano em seu estado latente, habilidoso no que sabe fazer (correr), mas ainda inapto para sobreviver nas agruras do jogo de dinheiro e poder que ocorre na nata da indústria automobilística: a Fórmula 1, campeonato mundial máximo na carreira de um piloto de corridas.

A narração em off de pessoas que conviveram com o piloto enquanto, em paralelo, assistimos imagens das corridas e dos bastidores devidamente mescladas, torna a experiência interessante mesmo em acompanhar algo que já conhecemos. E o fato de termos em sua maioria entrevistas e imagens vindas de fora do Brasil é um bônus ao espectador nacional, em uma espécie de novidade dentro do já visto (pelo menos para os que acompanharam sua carreira).

O uso da montagem de filmagens com diversas origem, como as câmeras das corridas e vídeos amadores dos bastidores das equipes, faz com que a narrativa adote uma estrutura de mosaico que funciona com uma fluidez admirável, ainda mais se percebemos que nada daquilo foi produzido para o filme. Junto da história temos uma trilha sonora básica e muitas vezes apagada, sendo exatamente essas duas características que a tornam tão efetiva, pois nunca se coloca à frente do que virá, mas que sempre acompanha o mais importante: o estado de espírito do protagonista.

O final, pausado e reflexivo, remete a uma dramatização criada em filmes de ficção, e que aqui assume essa posturar de forma bem competente, transformando até mesmo as tomadas mais sensacionalistas da televisão de urgência como se fosse uma cena de despedida previamente escrita em algum roteiro (como as cenas aéreas, propositadamente em câmera lenta, do carro acidentado).

Por fim, mesmo que a direção e montagem apenas mantivessem o pulso firme na construção da narrativa, teríamos no máximo um relato histórico bem feito. No entanto, existe ainda um esforço consciente e elaborado em construir ao mesmo tempo a psique do seu personagem-título, acompanhar seus erros e acertos que irão culminar na evolução do seu próprio caráter. É na busca incessante pelo seus objetivos que o documentário converge para drama, que personagem vira protagonista, que protagonista torna-se herói.

E é na rima final, quando perguntado qual piloto com quem havia corrido que admirava mais, que Senna realmente prova ter sido digno de todos os seus feitos em vida e dos méritos que recebeu, pois nunca, durante toda a carreira, havia abandonado os princípios que o guiaram do começo ao fim em busca do que faz um verdadeiro piloto, esteja ele onde estiver: correr o mais rápido que puder.

Senna ● Senna. Senna (UK, 2010). Dirigido por Asif Kapadia. Escrito por Manish Pandey. Com Ayrton Senna, Alain Prost, Frank Williams, Ron Dennis, Viviane Senna, Milton da Silva, Neide Senna, Jackie Stewart, Sid Watkins. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-11-26. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?