Sonhos

Caloni, May 5, 2019

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Assisti a Sonhos, de Akira Kurosawa, dividido em dois. Minha esposa dormiu na metade. Eu avisei para ela que esse cineasta é lento.

As pessoas hoje em dia não têm paciência para observar e contemplar a beleza da composição dos quadros de Kurosawa. E não são apenas os quadros, como a verdadeira pintura dos cenários, do figurino e, principalmente, da imagem que fica em nosso inconsciente ao absorver todas aquelas cores que parecem fazer parte de quadros móveis em ângulos inusitados, mas misteriosamente perfeitos.

O ritmo é lento porque é contemplativo. É algo para parar, observar, refletir, apreender, assimilar. E se modificar no processo.

Em Sonhos o cineasta faz uma ode à natureza e alerta para os caminhos nefastos que a natureza humana está nos levando com os milagres da tecnologia. Pode ser uma argumentação anprim (anarco primitivista) ou, o mais provável, o espírito japonês, que se relaciona tão bem com a natureza. O animador Hayao Miyasaki é especialista nessa mensagem, como seus trabalhos como Ponyo já demonstram, ou até mesmo o jovem clássico Meu Amigo Totoro.

Este é um filme cheio de curtas independentes, mas que se relacionam. No começo um garoto é punido por ver o que não devia: o casamento das raposas. Sua mãe não o deixa mais entrar em casa e ele deve ir se desculpar com elas ou se matar. A analogia cristã do pecado original é óbvia, mas transformada em alegoria japonesa é fabulosa. O ritmo da marcha, o mistério da música das “raposas”, é sobrenatural, e ao mesmo tempo tão visualmente completo.

Após ser expulso da natureza o homem começa a ter uma relação doentia com a natureza, cortando árvores de pessegueiro e iniciando guerras. E Kurosawa não deixa por menos, utilizando sua maestria de contador de histórias para tornar a perda de soldados uma tragédia tanto para os que morrem quanto para os que vêem responsáveis. São momentos fortes que vão compondo a sensação geral de todos nós, humanos, e nossa perda de conexão com o que nos era divino.

Sendo tragicamente profético ao narrar o desastre nuclear que transformará o homem e a natureza em versões demoníacas de si mesmos, Kurosawa não quer apenas nos punir ou nos fazer sermão. Ele, assim como nós, é humano. E seu último sonho acaba sendo algo tão simples que fica difícil ter argumentos para com o velhinho de 103 anos vivendo em um vilarejo que nos faz lembrar dos ensinamentos de Kim Ki Duk em Primavera, Verão…, mas vai além, para o retorno do homem ao seu paraíso.

Este pode ser um diretor de filmes lentos para minha esposa e a juventude eternamente conectada na internet, mas ele nunca será irrelevante. Pelo contrário, quanto mais o Homem avança mais no progresso mais se torna óbvio que uma mudança é necessária. Kurosawa mostra aqui sua sugestão de maneira primorosa. Já é um começo.

Sonhos ● Yume. Japão, EUA, 1990. Dirigido por Akira Kurosawa e Ishirô Honda, escrito por Kurosawa. Com Akira Terao, Mitsuko Baishô, Toshie Negishi. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-05. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?