Star Wars: O Despertar da Força

Caloni, May 15, 2019

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Este reboot praticamente da saga vem com direito a todas as cotas possíveis e imagináveis. Daisy Ridley (mulher: check) faz a jedi que consegue fazer tudo em um episódio, desbancando Luke Skywalker e o resto da galáxia. John Boyega (negro: check) é um ex-stormtropper que possui o tom cômico que a série precisa, mas está cheio de draminhas pessoais e faz questão de envolver todos neles. Oscar Isaac tem essa faceta meio gay (check) e que eleva a ambiguidade entre triângulo amoroso e incesto do filme original para outro nível.

E por falar no original, a aventura é exatamente a mesma de Uma Nova Esperança e um pouquinho de O Império Contra Ataca. O diretor e idealizador desse formato, J. J. Abrams, é especialista em reboots. Olhem a maravilha que ele fez em Star Trek). E não podemos dizer que Missão: Impossível 3 não seja um reboot depois do 2 ter destruído esta bela franquia.

Mas este não é um filme sobre histórias, assim como toda a saga Star Wars nunca foi muito boa em narrativas (exceto a trilogia de George Lucas, que realiza um bonito pano de fundo para o universo). Este é um momento em que Star Wars renasce enfatizando seus valores mais preciosos: a força de fazer o que é certo porque é certo. E nós veremos isso em seu estado da arte na sequência, Os Últimos Jedi, o melhor filme de toda a saga do ponto de vista de aventura.

Mas voltando aos valores, o roteiro escrito a seis mãos (incluindo Abrams) constrói uma nova fábula reciclada de Luke através da catadora de lixo Rey (Daisy) em uma época muito tempo depois de O Retorno de Jedi, em que Luke Skywalker e os jedis se consolidam como uma lenda, algo já explorado no último filme da trilogia original, em que o androide C-3PO ajuda a espalhar a palavra pela galáxia. Estamos em um período que o Império começa a crescer de novo com um outro nome (alegoria política: check) e que desenvolveu um canhão capaz de dizimar vários planetas de uma vez (estrela da morte: check) e que tem uma falha em um local específico onde os pilotos da Resistência podem acertar (falha na estrela da morte: check). Há um evento catártico no final que envolve a morte de um personagem e com isso a ação consegue ser desenvolvida por duas horas e meia sem cansar.

O filme é muito bem feito, especialmente as cenas de ação. A cartilha SW está sendo seguida à risca, com cortes antigos, letreiro inicial e todo o fan service que se espera de uma franquia como essa. É previsível, esperado e inevitável que o primeiro filme que não é controlado pelo idealizador da série, George Lucas, contivesse tantos elementos repetidos, que soam como um remake ou homenagem bem intencionados. Ou podemos refletir um pouco mais e chegar à conclusão comercial que, do ponto de vista dos fãs, faz todo o sentido abraçar os três filmes clássicos, agora sob as asas da fabricante e líder de franquias em vendas – e isso quase nada nos cinemas – que é a Disney.

Mas essa repetição não deixa de gerar um certo estranhamento para cinéfilos atuais. Star Wars: o Recomeço, não deixa de mostrar, pela sétima vez, seu letreiro flutuante que foi por muito tempo símbolo do pop artístico e uma marca cult dos excitantes anos 70 a 90. Porém, diferente dos créditos iniciais sempre iguais dos filmes de Woody Allen – previsível, monótono e charmoso – aqui temos um resquício jurássico que hoje, incríveis quase quarenta anos depois, parece simplesmente um recurso brega aplaudido por gerações que aprenderam que ser nerd, quase como uma receita de bolo, é assistir a esses filmes no espaço e acreditar ingenuamente que seus valores na vida real fazem parte da eterna luta da Resistência contra o Império.

Mas apesar das referências, homenagens e cópia descarada, o roteiro consegue criar uma estrutura impressionantemente coesa, fluida, e até dramática, sem apresentar praticamente nada de novo. O resultado final é tão coeso, tenso e ritmado que abraçar os dois primeiros filmes é até compreensível do ponto de vista afetivo; obrigar-nos a ver pela terceira vez uma Estrela da Morte – ou o que o valha – mesmo que introduzida com um dos melhores efeitos do filme, é talvez pedir um pouco demais.

Mas se há algo de verdadeiramente novo neste filme, e isso não deixa de ser irônico, são os efeitos visuais. Diferente da nova trilogia 1999-2005, que abusava sem critérios do digital, aqui há uma mescla inspirada que consegue trazer o “realismo” da trilogia clássica. Além do mais, o músico John Williams parece ter acertado o tom muito mais em seu sétimo trabalho na série, conseguindo criar trilhas novas que pertencem ao mesmo universo. É graças a ele que não precisamos fazer uma lavagem cerebral para tirar o tema clássico da cabeça, já que este é usado de maneira econômica e inteligente apenas nos momentos que cenas e referências clássicas são evocadas (ainda assim, não deixa de ser sua melhor tirada a marcha imperial em um crescente sutil e ao mesmo tempo presente durante os episódios I e III). Ainda no aspecto técnico, talvez a maior decepção seja o novo Lord, o Líder Supremo Snoke. Interpretado por Andy Serkis por captura de movimento, sua figura animalesca pode tentar evocar o mal encarnado, mas dificilmente as expressões de Serkis fogem do óbvio e do já encontrado em sua interpretação de Gollum no Senhor dos Anéis.

E se o que pareço fazer neste texto são mais e mais comparações com os filmes anteriores, não é de forma gratuita. O Despertar da Força pede a todo o momento essa comparação, trazendo planetas e raças recorrentes, e, talvez o pior, os próprios personagens da saga original, sempre tentando se levar pela inércia de seu universo. Felizmente, o resultado está sempre à altura, nunca decepcionando nem fã nem cinéfilo (se desapontar, será pela falta de novidade).

Porém, se a decisão de trazer de volta Hans Solo (Harrison Ford), princesa Leia (Carrie Fisher) e Luke Skywalker (Mark Hamill) pode parecer puro marketing, o terceiro ato do filme faz valer a pena essa ressurreição, pois pelo menos duas reviravoltas, uma tensa e outra empolgante, que já entram na coleção de melhores momentos da série, só são possíveis graças aos elementos resgatados por suas personas. Obviamente ambos os momentos têm relação com o icônico sabre de luz (que aqui parece tomar forma mais científica sem entrar em detalhes embaraçosos, como tentou George Lucas na nova trilogia), e, sem querer estragar a surpresa, com pelo menos um momento já repetido da saga.

Terminando obviamente com abertura para continuação(ções), mas felizmente entregando também um desfecho satisfatório (diferente dos trabalhos com super-heróis ultimamente), O Despertar da Força está longe de ser memorável e mais longe ainda de ser original, mas nem por isso não se estabelece como um exemplo à altura do universo. Que a força esteja com J.J. Abrams!

Star Wars: O Despertar da Força ● Star Wars: The Force Awakens (USA, 2015). Dirigido por J.J. Abrams. Escrito por Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michael Arndt, George Lucas. Com Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong'o, Andy Serkis. Texto original de 2016-01-08. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-15. Revisto em 2019. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?