Tokyo!

Caloni, June 11, 2019

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Só tem diretor foda nesse filme. Mas diretores foda podem fazer cagada de vez em quando. Felizmente não é o caso de “Tokyo!”, que nos apresenta o tema cidade-título de uma maneira que Nova Iorque/Paris Eu Te Amo nem sonham em fazer.

Mas estou sendo desonesto. Esses dois outros trabalhos de curtas em volta de uma cidade ficam mais no aspecto romântico das megalópoles. Em “Tokyo!” o espírito da cidade grande japonesa se transmorfa em diferentes formas de viver, seja em um relacionamento insatisfatório com outra pessoa, uma relação de ódio com a sociedade ou até o desejado reencontro com a humanidade em um mundo que ironicamente apesar de ter tanta gente morando por perto nos escondemos mais e mais.

Embora o estilo do diretor Michel Gondry, de Brilho Eterno, o puxe para trucagens na tela que o faz escolher temas como “uma pessoa se transforma em uma cadeira”, ele não está preso apenas ao estilo. Habilidoso em encontrar formas de contar a história que se propõe, Gondry analisa o relacionamento de um casal em que ela está tão apagada que não consegue ter uma conversa séria com o namorado há muito tempo, e não consegue sequer conseguir um lugar para morar. Essa necessidade de ter um lar aliada à dificuldade disso em uma cidade como Tóquio se unem de uma forma que seria inadmissível em um projeto mais comercial. Aqui a liberdade artística voa longe, e nos deixa pelo menos pensativos sobre não apenas o filme, mas nossas próprias vidas. Se você vive em uma grande cidade talvez se identifique mais.

Já Leos Carax é aquele cara que vem para causar. É dele a história de Merda, um monstro que vive no esgoto da cidade e que resolve ir à superfície para declarar todo seu ódio pelas pessoas. Carax possui o controle absoluto da narrativa, como pode-se verificar nas rimas visuais com o telejornal ou a caminhada sangrenta que este monstro realiza em uma rua movimentada. A analogia com Godzilla é apenas uma primeira camada que atinge interpretações que caminham pelo terrorismo contemporâneo, intervenções norte-americanas e até uma certa dose de xenofobia. Mas tudo isso só funciona por causa do ator e sua caracterização, que nos gera empatia mesmo que ele cometa atrocidades. Os motivos pelo qual ele odeia os japoneses é uma cereja no bolo. Este é um filme que pode ser interpretado de tantas formas diferentes e o trabalho de Carax é tão intenso. Seu personagem volta a nos assombrar em Holy Motors, interpretado pelo mesmo ator, queridinho do diretor, o talentosíssimo Denis Lavant.

E por fim Joon-ho Bong (O Hospedeiro) nos presenteia com uma mensagem de esperança em meio a terremotos na terra do sol nascente. Para isso ele utiliza a figura controversa de uma pessoa que não sai de casa há 10 anos e uma entregadora de pizza que o desperta para uma visão profética sobre o mundo onde somos prisioneiros desse sentimento de auto-proteção em meio às multidões. Apenas repare nesse segmento como ele utiliza uma mera sombra atrás de uma porta de vidro que se distancia como se dissolvendo e testemunhe um mestre do terror trabalhando com elementos naturais. A sequência do terremoto na rua é um marco de primor e uma das cenas marcantes daquele ano no Cinema.

“Tokyo!” não é de maneira alguma um filme fácil para as massas. Ele é interpretativo na maioria do tempo e não deixa nada muito mastigado para aquele espectador preguiçoso. Mas fala sobre a cidade, indo até além. E possui a estética e a competência de três diretores top de linha. Eles possuem pouco tempo em seus curtas, mas comprovam que para um artista completo basta meia-hora para virar seu mundo dos avessos.

Tokyo! ● Tokyo! França, Japão, Coréia do Sul, Alemanha, 2008. Dirigido por Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong. Escrito pelos três, com o primeiro episódio Interior Design inspirado na graphic novel de Gabrielle Bell. Com Ayako Fujitani, Ryo Kase, Denis Lavant, Jean-François Balmer, Renji Ishibashi, Yû Aoi, Teruyuki Kagawa, Naoto Takenaka. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-06-11. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?