Tudo pelo Poder

Caloni, December 30, 2011

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Geralmente filmes que tentam revelar os bastidores da política soam pretenciosos e bobinhos em suas conjecturas infantis e roteiros confusos e incompletos. Esse não é o caso de Tudo Pelo Poder, que consegue, de maneira didática e assustadora, revelar muito mais sobre o pano de fundo de influências do que gostaríamos de saber ou de admitir.

Nesse sentido, e apesar de textos muitas vezes necessariamente longos, a direção concisa de George Clooney revela de maneira brilhante as inúmeras subtramas no contexto do poder e como ele vira mercadoria negociável, independente das aspirações ou princípios dos candidatos à presidência. Aliás, o próprio caráter das pessoas envolvidas, mesmo que aparente, vira moeda de influência que possibilita, por exemplo, que figuras competentes da propaganda como Stephen Meyers (Ryan Gosling) confiem e arquitetem de maneira impecável cada próximo movimento de seu candidado, no caso o governador Mike Morris (George Clooney), justamente pela esperança que seus discursos representam para uma nação que depois da crise terrorista e posteriormente econômica anseia quase que desesperadamente.

Na verdade, o que move Meyers é justamente o que faz com que o espectador tome o partido quase que incondicional por Morris, pois seus diálogos sempre revelam uma pessoa imparcial e de bom senso que emerge em meio a opiniões acaloradas sobre temas polêmicos. É quase impossível não se deixar levar pelo magnetismo de seu discurso eloquente e sua inabalável auto-confiança.

É por isso mesmo que, quando o terceiro ato se encarrega de desabar essas convicções como um castelo de cartas levemente mal arranjado, sentimos um mal estar. Não tanto por estarmos presenciando mais uma veia corruptível, mas talvez por essa veia existir em cada um de nós, em menor ou maior grau. Fica parecendo que é praticamente impossível de desvencilhar dos caminhos que Morris e seu pupilo são obrigados a seguir, e o que é mais trágico, seguem esse caminho pelo amor à política.

Quando o jogo começa a virar é que a direção segura de Clooney arrebata o espectador em cenas de tirar o fôlego como quando um certo personagem atende ao celular, ou em suas sutis, mas belíssimas, rimas visuais, como quando outra pessoa desafia a gravidade das atenções fugindo seu olhar de onde todos estão hipnotizados, confirmando naquele momento a radical mudança a qual foi obrigado a passar em poucas horas. Tudo isso impregnado em uma fotografia obscura, sisuda e até um certo ponto sinistra. Nunca há um raio de luz para nos abençoar no filme de Clooney. Se há, é fruto do mesmo cinismo que construiu o candidato perfeito e nos desafia a olhar para dentro dele e enxergar o mecanismo macabro da política, reflexo de nós mesmos.

Tudo pelo Poder ● Tudo pelo Poder. The Ides of March (USA, 2011). Dirigido por George Clooney. Escrito por George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, Beau Willimon. Com Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minghella, Jennifer Ehle. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-12-30. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?