Mulheres no Front

2020-03-11 · 917 · 5

Valerio Zurlini é um cineasta existencialista que se tornou resistência italiana na segunda guerra, em grupos anti-fascismo que se ergueram após Mussolini se tornar marionete de Hitler. Ele começou com curtas e eventualmente fez alguns longas de prestígio que ganharam prêmios europeus. O pessoal que preparou o DVD no Brasil é seu fã, e o texto que o introduz o apresenta como um artista da altura de Felini. Os trailers dos filmes do DVD são dele ou de sua época, um presente de muito bom tom.

Em Mulheres no Front as mulheres estão em foco e enquadradas das mais diversas formas e de diferentes ângulos. Os roteiristas a colocam em um caminhão militar e vai distribuindo pelo percurso. Elas são gregas e estrangeiras na Grécia que estão vivendo em um país ocupado e que não lhes dá o que comer. A solução é se prostituir e aceitar o racionamento italiano. É difícil imaginar tanta protuberância e desnutrição na mesma cena, então sabemos que essas garotas fazem bem o que antes faziam de graça.

Em suma: que prostitutas belíssimas! O filme as exibe não como uma vitrine, mas como vencedoras de concurso de beleza. Suas peles e a luz que incide sobre elas nos mostram como o Zurlini não quer comprometer em nenhum momento o empoderamento daquelas mulheres. Elas são vistas em diferentes momentos, e são muitas, não sendo permitido que criem personagens muito destacadas da massa feminina. No máximo são exemplos de como reagir em um clima de constante perigo, embora a hospitalidade italiana pareça sempre ser uma máxima. Todos se divertem em Mulheres no Front; não há discursos politicamente correto.

Este é um filme dos anos 60 sobre os anos 40, quando a Itália invadiu a Grécia em uma campanha desastrosa. Dezenas de milhares de mortos depois o inferno estava instalado entre os irmãos gregos, e italianos já não mais tão fascistas como antes lutam para permanecer vivos até a guerra acabar. Conseguir voltar para a terra natal é um desejo em comum, e assim o Sargento Castagnoli bola um plano: se voluntariar para distribuir essas belas moças pelos alojamentos em torno do certo fascista. Então ele recebe um caminhão de beldades de presente. É difícil não se empolgar se colocando em sua pele, mas por algum motivo ele está sempre muito sério.

O italiano falado neste filme é simples e fácil, e serve bem para aprendermos palavras e frases simples. A dicção dos personagens é quase teatral, mas o preto e branco e a iluminação nos lembra sempre o realismo dessa história. Os diálogos não são dramáticos, mas pé-no-chão. Aquelas pessoas existiram de fato. Pode não ser na mesma encarnação, mas em algum momento da História. A virtude do filme é não se colocar entre nós e elas. A mensagem do diretor é: se divirta com essa comédia da vida real.

A mesma música-tema, de Mario Nascimbene, é tocada à exaustão, mas ela não é memorável. É uma mistura do estilo grego e italiano, e uma mistura entre o drama e a comédia. Olhem a situação absurda que chegamos: não há comida para todos, mas a prioridade é que não falte mulher em cada front. E a homenagem da música de Nascimbene é sobre esse absurdo. Se torna cansativo da metade para o final, contudo.

O Tenente Gaetano Martino, que segue viagem com o comboio como convidado, não quer tomar as rédeas do comando do oficial responsável pela jornada, mas seus motivos são mais egoístas do que formais. Ele só está interessado nas mulheres e viver a boa vida. Podemos estender esse objetivo para o motorista da caminhoneta. Quem pode culpá-los em pensar no paraíso quando há tamanho carregamento?

Já o sargento, o mocinho indiscutível, o rapaz bonito que carrega todas essas moças lindíssimas, está também interessado em uma delas. Há uma tensão no ar sempre que se encontram em cena, e o filme mantém essa tensão evitando cenas em que eles fazem o que estamos esperando eles fazer. A atuação de Mario Adorf é dura, impenetrável. A de Tomas Milian, como o bon vivant, já é mais agradável, porque é mais natural. Assim como a do ator que faz o motorista (não achei o nome), que divide com uma das mulheres as cenas mais humanas e inesquecíveis, quando ambos planejam uma vida juntos quando o inferno acabar.

Embora não haja cenas picantes de fato, isso não quer dizer que este é um filme casto. Há momentos mais calientes, embora não explícitos, mas mais eróticos que a maioria dos filmes norte-americanos consegue. Há uma falta de pudor muito bem-vinda, que permite que Zurlini nos abençoe com a natureza humana como ela é, ainda que exagerada pelo bem da história. Mas sabendo que estão em guerra, talvez não seja tão exagerada suas reações. Nunca saberemos, mas ao menos gostaríamos que essas mulheres tivessem sido tratadas com a mesma dignidade vista no filme.

Mas dignidade não significa falta de contato, e é isso que a geração atual não percebe. Ao impor barreiras de comunicação corporal entre homens e mulheres com o intuito de proteger essas últimas, a geração do não-me-toque cria uma fronteira intransponível, e com ela terminam as possibilidades pós-guerra dos sexos de qualquer debate produtivo e de igual para igual de como um casal irá ser feliz. E é por isso que é tão importante revivermos filmes como este, que mantém a dignidade alcançada pela mulher nos anos 60 e 70, mas também a mesma dignidade de uma época em que existiam homens de verdade.

"Le soldatesse" (Itália, França, Alemanha Ocidental e Iugoslávia, 1965), escrito por Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi e Ugo Pirro, dirigido por Valerio Zurlini, com Mario Adorf, Anna Karina e Marie Laforêt. 4/5 · movie · 2020-03-11
O Chão Sob Meus Pés Collective