Nós

2019-12-12, 1233 words, 6 minutes

“Portanto, assim diz o Senhor: Eis que trarei sobre eles mal, de que não poderão escapar; e, se clamarem a mim, não os ouvirei.”

Um grande filme não começa dizendo isso de primeira. Ainda mais em um gênero tão maltratado quanto o terror. Ele te pega pela mão em um momento inocente, e através desse momento constrói toda uma mitologia cheio de camadas em que as camadas irão sendo reveladas ao espectador sem pressa, durante a projeção, após os créditos e na hora de dormir. E após assistir “Nós” a sensação estando na cama é que até dormir será difícil.

O momento inocente do segundo filme dirigido, escrito e produzido por Jordan Peele, do ótimo “Corra!”, é quando acompanhamos o pequeno devaneio da pequena Adelaide, acompanhada dos pais no parque de diversões em uma praia de Santa Cruz, na Califórnia. São os saudosos anos 80, o que nos remete não apenas à época, mas ao gênero terror (e os filmes produzidos nessa época de ouro). Os pais de Adelaide não estão prestando e ela percorre sozinha o parque descendo em direção à areia. Lá ela encontra uma atração chamada “Conhece a Si Mesmo”, com um índio desenhado no banner. É um labirinto de espelhos, e você sente que será um grande terror quando a catarse da cena acontece e não há nenhum aumento no volume para nos assustar. O medo puro é o que não precisa de efeito sonoro para nos atingir; ele penetra em nossas almas pelo que vemos e não deveríamos ver.

Essa é a história sobre Adelaide crescida e com família formada, seu marido e um casal de filhos. De férias. Em Santa Cruz. Nós sabemos que a agora mulher Adelaide tem um trauma, pois alguns flashbacks nos ajudam. E nós sabemos que haverá uma reviravolta, pois este é um filme de terror e ele começa com uma música cerimoniosa pop e que vai se tornando tragicômica no decorrer do longa enquanto Jordan Peele vai conduzindo sua câmera para cada vez mais longe de dezenas de gaiolas onde estão encarcerados coelhos de diferentes raças, em uma alusão e brincadeira a um outro filme envolvendo cartolas, que caso você conheça poderá te colocar uma pulga, desses coelhos, talvez, atrás da orelha, e mesmo que não tenha a cena servirá múltiplos propósitos no roteiro, das tais camadas que comentei.

Muitas pessoas entrarão e sairão de uma sessão de “Nós” não entendendo nem mesmo 20% de todo o contexto, mas ainda assim acharão este um terror de qualidade, frenético, que não possui pausas, que não trata o espectador como idiota, que sabe a hora de evitar clichês, como a chegada de uma segunda família e os acontecimentos que se seguem a partir de uma chamada para a polícia, e sabe o momento em que usá-los é uma piscada inteligente para quem assiste, como a forma acrobática com que alguém acaba caindo morta. Este é um filme que não apenas conhece o gênero onde está inserido, mas conhece seu espectador, o respeita e o admira. Do ponto de vista de um cinéfilo, você se sente abraçado por um filme desses.

Diferente de “Corra!”, os momentos cômicos ou a comicidade dos personagens de “Nós” são contados nos dedos, e muito melhor utilizados. Há um respiro no filme, mas bem pouco, quando esses momentos chegam. Mas Peele não quer que você respire muito. Apenas o suficiente para conseguir chegar no final e ter energia para entender a complexidade com que a frase “Conhece a Si Mesmo” do lado de um índio, espelhos, a frase “somos americanos” e macacões vermelhos, por incrível que pareça, se relacionam da maneira mais bonita e poética possível, e não gritam significados para o espectador, pois não são importantes para a trama principal, que é um slasher bem básico que todo mundo consegue se divertir.

(Porém, a partir da chegada da segunda família ao filme ele deseja que o espectador pelo menos se comprometa em refletir a respeito do que tudo isso significa. Sabe como é: a camada básica. Porque se nem a básica, a que está no título do filme, o espectador não se sujeitar, ele poderá de maneira inacreditável achar este um filme chato.)

São tantas questões levantadas pela história de “Nós” que corremos o risco até de fazer perguntas que o filme nem estava preparado para responder. Por exemplo: quem come carne vermelha a vida toda tem um potencial de ser mais ágil e forte de quem não come? E uma pergunta despropositada como essas ainda assim estará inserida em todo o contexto histórico que o filme nos propõe, ao comparar classes distintas de indivíduos e o que leva aos membros de um grupo ser considerado livre e o outro não, ou que um grupo tenha alma e o outro não. Esse filme gera esse efeito das perguntas se profilerarem, e não cabe a ele ter todas as respostas. Apenas as básicas, quem vai se salvar e o que acontece depois.

Eu me admiraria se a trilha sonora de Michael Abels não fosse indicada a nenhum prêmio, mas só porque o gênero terror surge renovado nessa década e é levado em conta. Escolhendo acompanhar a cadência tanto físico mental, do espectador e dos personagens, Abels investe em pausas aparentemente sem ritmo e sentido que reflete perfeitamente o nosso processo de digestão do filme e das cenas de suspense, em um equilíbrio quase perfeito entre tensão física e compreensão intelectual. E a dica é plantada desde o começo, com a chegada da família à casa de campo com uma música tocada no rádio, que assim que eles chegam para abruptamente.

Já a fotografia de Mike Gioulakis consegue nos manter em uma versão que abraça os anos 80 ainda que a grande maioria do filme se passe nos “tempos atuais”, pois entende que filmes de terror desse nível devem se encontrar nessa década, mas ao mesmo tempo, em vários momentos, é a melhor luz que sobressai. Dessa forma, é por isso que quando acaba a energia na casa do campo somos levados para uma atmosfera cheia de sombras, pois é a apresentação das sombras que iremos testemunhar, ou uma luz de colégio amarelada soa mais correta em uma sequência que envolve longos corredores e salas impessoais.

Em filmes de terror geralmente o elenco é o que menos importa, mas a presença e a criação de Lupita Nyong’o prevalece o tempo todo. Ela faz Adelaide crescida, mas é na criação de suas personagens que ela toma o protagonismo do filme inteiro para si. Lupita é multifacetada, cria personagens completamente diferentes nos filmes que trabalhou, como 12 Anos de Escravidão e Pantera Negra, e aqui tem a chance de nos conduzir pelo horror de um simples diálogo dito com uma distorção de voz angustiante. E não é só isso, pois as expressões no rosto da atriz soam deliciosamente ambíguos em retrospectiva.

Jordan Peele tem o controle do roteiro e da direção e aqui se torna um mestre do terror, privilegiando a talentosa equipe que conduziu a esta experiência profunda de sensações e de significados. Os significados podem ser buscados pelo espectador, um a um, mas sabendo que este é o mesmo diretor de “Corra!” se torna mais fácil perceber que este não é apenas um slasher de qualidade. Os melhores terrores, assim como os melhores sci-fi, estão sempre nos trazendo as melhores reflexões sobre o mundo real. E US não poderia ser diferente.

Nós. "Us" (EUA e China, 2019), escrito por Jordan Peele, dirigido por Jordan Peele, com Lupita Nyong'o, Winston Duke e Elisabeth Moss. Vendo para o top10 do ano. Nota: 5/5. Tags: movies. IMDB: 6857112. Publicado em 2019-12-12. Quer colaborar?