O Hospedeiro

2019-11-20, 844 words, 4 minutes

Há vários tipos de cenas em O Hospedeiro tradicionalmente feitas para serem impactantes e emocionantes. A indústria americana em Hollywood popularizou o formato de filme-catástrofe quase que em uma cartilha. E o diretor/roteirista Bon Joon Ho subverte tudo isso, escancarando tantas novas possibilidades que quase nos esquecemos da história principal. Ela pouco importa quando temos tanto a discutir sobre a linguagem cinematográfica em apenas um filme.

Mas existe um guia emocional por trás das divertidas subversões que o filme aplica nos momentos que mais esperamos deixar de pensar (por estarmos acostumados com o produto americano). Seu nome é Park Gang-Doo, e ele é um pai solteiro lento no raciocínio e distraído a respeito da vida que todos investimos, aquela sobre carreira e buscar sempre estar melhor no futuro. A criação de um verdadeiro idiota do ator Hang-ho Song (do ótimo Memórias de Um Assassino) não é nada sutil, mas é realista, e ganha nossa simpatia porque Hang-ho coloca a emoção de seu personagem sempre à frente de suas limitações.

Essa emoção é demonstrada principalmente pela dedicação por sua filha, Park Hyun-seo, que por ironia fina e sutil da vida, apesar de distraída como o pai, ela é esperta. Ambos são o núcleo da família que Bong Joon Ho irá conduzir para sequências de ação que contrariam as facilidades da ficção hollywoodiana. Para conseguir resgatar Hyun-seo a família precisa subornar todo funcionário do governo que encontrar pelo caminho até o rio Han, interditado pelas autoridades não porque um monstro assassino gigante mora em suas águas, mas porque alegam que ele carrega um vírus mortal.

Em uma inversão de valores absolutamente genial, as pessoas que tiveram contato com o monstro se tornam propriedade do governo, representado por pessoas míopes do cenário geral, cada uma dentro de sua área de especialização, e o monstro segue livre de interferências até que um produto letal (americano, claro) chegue até o país e dê um jeito no bicho.

A subversão do filme-catástrofe começa pelo exagero do luto da família Park em frente ao retrato da pequena Hyun-seo. Todos se encontram em uma catarse tragicômica que evita a necessidade de apresentação. Cada um tem sua vida, mas estas foram interrompidas com a morte da sobrinha/neta, e agora todos acreditam que ela ainda esteja viva. A partir daí o filme não para em nenhum momento, pois acreditem ou não esta é uma situação realista, e a menina sequestrada pelo monstro não tem o que comer. Quantos dias se passaram? Alguns, mas não observamos nenhum letreiro. Compartilhamos a desorientação dessa família durante essa busca quase impossível pelos esgotos que circundam o rio, e essas são pessoas comuns o suficiente para entendermos o misto de dor e de empenho em serem mais do que crentes do que vêem na TV.

Essa crença televisiva é demonstrada em um momento onde um funcionário com vestes amarelas de quem está organizando uma quarentena chega tropeçando para avisar às pessoas presas que elas ficarão ainda presas. A explicação ele não tem, mas tenta achar um canal de TV que tenha. A incompetência das autoridades coreanas é tão escrachada no filme que torna a intervenção americana quase que desejada, mas a cena inicial onde um cientista americano manda dispensar litros e litros de uma substância química tóxica no rio Han, provavelmente criando depois de um tempo o monstro do filme, nos permite enxergar uma alegoria inteligente e indizível sobre política e sociedade que apenas precisa bater na tecla da incompetência através do humor para entendermos o recado.

O Hospedeiro usa o formato que pretende atacar quase de como um guia sobre comos filmes desse tipo nunca abordam as inevitáveis situações de maneira honesta. Este é um filme em que tudo é difícil, porque na vida real é assim. E cômico, também. Há incontáveis momentos em que não sabemos se é uma cena para rir ou chorar, e a trilha sonora mais do que conveniente de Byung-woo Lee mistura drama com comédia de situação de maneira tão natural que ambas soam familiar sem nenhuma delas dominar a cena. Para o espectador é uma catarse tentar identificar qual o clima vigente e descobrir que a resposta não é tão fácil assim. Esse é um filme que mistura gêneros.

Há um monstro criado por computação, e é o que menos convence. Mas queremos acreditar que sim, já que todo um excelente filme depende disso. De qualquer forma, sua estética foge por completo dos monstros que estamos acostumados a ver nos filmes. Seu formato é estranho, incompreensível, e é a grande metáfora da história. Ele representa o desconhecido, o que temos medo, e o que inventamos para ignorar sua existência. Como o aquecimento global, este monstro não parece real, e é exatamente assim que ele deve ser para cumprir seu propósito de como sociedade desgovernada nos confundir. Você pode dar um novo significado ao monstro, o que tiver enxergado no momento, e ele provavelmente será válido, mas O Hospedeiro entrega também a versão conformista para os que não aguentam filmes com pontas soltas. E a versão conformista é a mais feia de todas.

O Hospedeiro. "The Host" (Coreia do Sul, 2006), escrito por Bong Joon Ho, Won-jun Ha e Chul-hyun Baek, dirigido por Bong Joon Ho, com Kang-ho Song como o pai, Ko Asung como a garota, Hee-Bong Byun como o avô, Hae-il Park como o irmão e Doona Bae como a irmã (aka Bae Doo-na). Assisti na Netflix enquanto está ainda disponível. Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-11-20. Quer colaborar?