O Irlandês

2019-12-10, 1216 words, 6 minutes

Se você já assistiu a O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, O Irlandês fica no meio do caminho. É um filme mais agitado e com muito mais violência gráfica que o clássico de Coppola, mas muito menos apressado que o filme de gângsters de Martin Scorsese. Cito Goodfellas não porque tem Joe Pesci no elenco, mas porque fala sobre um caso real de máfia e possui o ponto de vista de alguém que viveu aquilo de perto.

Scorsese é obcecado pela máfia. Quanto mais próximo do real para ele melhor. E por isso ele vem se especializando em roteiros baseados em biografias, de preferência em primeira pessoa. Se em Silêncio, seu filme anterior, o diretor usa o material de Shūsaku Endō, um raro escritor japonês católico, para descrever um momento histórico onde essa religião encontra as terras nipônicas, em O Lobo de Wall Street ele acompanha as desventuras no mundo de especuladores da própria fonte pelo golpista Jordan Belfort.

Em “O Lobo” não é possível escapar da ideologia católica, baseada em culpa e pecados como a cobiça, e aqui essa mesma culpa em sua forma capital encontra respaldo nos últimos dias de Frank Sheeran, o assassino do famoso sindicalista Jimmy Hoffa. Esta história é baseada no livro do investigador Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, que sugere que ele seja o assassino de um ícone político americano cujo desaparecimento não foi nunca descoberto.

Sheeran é interpretado por Robert de Niro, que volta a atuar com o diretor depois de longo hiato. Ambos produzem esse filme que apresenta um protagonista indeciso sobre sua própria postura. Há um caráter moral muito forte nas decisões de Sheeran e a meia-vida que de Niro traz ao personagem é perfeita para uma personalidade ambígua, de quem não consegue se desvencilhar de quem é ou de quem se tornou, e que vai até as últimas consequências de sua existência, mesmo que para isso atravesse a sua própria consciência.

O momento em que ele decide viver por essas regras cuja cautela sugere amoralidade pode passar despercebido, mas é quando ele recebe um “favor” de um amigo que faz na estrada, Russell Bufalino, que já está na máfia há tanto tempo que seus movimentos são automáticos e soam naturais. O favor é não entregar Sheeran para a máfia judia por conta de uma possível traição que ele estaria prestes a fazer se metendo nos negócios que não lhe diz respeito. A passagem é contada com tanta economia pelo roteiro de Steven Zaillian que cabe a Scorsese nos iluminar com imagens nítidas que mantém esse fato na memória no decorrer das três horas e meia de filme.

Pode não parecer, porque Scorsese faz o filme com uma naturalidade tão ímpar, e sua montadora, Thelma Schoonmaker, atravessa a narativa com uma fluidez tão invisível, mas este é um filme batido em que o hitman irá precisar dar cabo de alguém que lhe é querido, e a terceira ponta da trama fica nas mãos de Al Pacino como o todo influente, engraçadão e impulsivo Jimmy Hoffa. Ele enxerga a lealdade de Sheeran em sua postura não apenas correta, mas afetivamente envolvente, o que para um homenzarrão é algo surpreendente. Você olha para Frank e é como se já o conhecesse de outros carnavais, ele está sempre onde se precisa, não faz perguntas e age imediatamente. Esse é um homem que faz o serviço, em extinção, e qualquer um o teria como braço direito.

Hoffa adora Sheeran, e adora sua filha, Peggy, que é uma criatura cujo papel é tão obscuro que a culpa católica do diretor não permite que ela vá para a superfície. Ela é menina e depois mulher, e as mulheres deste filme se limitam a servir como suporte invisível aos homens. Nada mais natural, pois a máfia é um ambiente de homens, mas Peggy surge em momentos pontuais para nos lembrar que ela é especial à sua maneira. Somos apresentados a ela quando seu pai arrebenta a mão do dono da mercearia por ele ter brigado com sua filha, o que em uma cena já nos diz o que precisamos saber sobre o temperamento de Sheeran, como ele lida com sua família e como Peggy o enxerga.

Personagens como Peggy nos faz lembrar que este é um filme longo e sutil, o que pode incomodar muita gente interessada na história. Mas a história nunca te dará a profundidade de sentimentos que emergem conforme acompanhamos cada cena em que De Niro, Pesci e Pacino contracenam. São os olhares e as observações secas de Sheeran que dão o tom ao filme a todo momento, muito mais que os diálogos ou a ação. Apesar de sua duração, este é o filme mais minimalista de Scorsese, que tem um elenco no estado da arte do minimalismo, exceto Al Pacino, porque ele precisa ser Al Pacino/Hoffa.

Mas observe como Pesci e De Niro ao longo de suas carreiras foram abraçando o dogma do “menos é mais”, e aqui eles nos entregam o mais menos possível. E é lindo. Alcançando uma complexidade de personagens da máfia que até agora apenas trabalhos como os de Coppola conseguiam entregar, O Irlandês não é apenas uma prova que os melhores atores envelhecem como o vinho, mas aos 77 anos, os diretores também. Scorsese não precisa dirigir este elenco, pois Pesci e De Niro entregam os papéis de suas vidas. Até agora apenas o Noodles de De Niro em Era Uma Vez na América conseguia tamanha profundidade com tão poucos diálogos. Agora a conta foi zerada.

Enquanto isso, Schoonmaker prevalece como a montadora definitiva sobre dramas violentos biográficos da história do cinema. Não é apenas o roteiro que possui uma estrutura de tempo elegante e sem maniqueísmos, onde o passado encontra o presente que remete ao futuro sem anúncios, mas a passagem dos anos não é anunciada, mas ainda assim sabemos que esta é uma viagem psicológica na mente de um indivíduo. E quantas transições entre cenas pode ser feita sem percebermos que estão ocorrendo? Schoonmaker quebra o recorde aqui, nos entregando todas. Não há cortes abruptos. Nem a elegante rima de Peter Zinner em O Poderoso Chefão conseguiu tal feito.

A fotografia de O Irlandês preparada por Rodrigo Prieto (Babel) favorece a passagem dos anos dos personagens, mas não é nas suas cores, mas no seu uso do grão, grosso, que ele nos atinge mais. O realismo que é trazido por cenas menos límpidas seria inconcebível com a direção de Scorsese, e é Prieto que o auxilia a manter a trama entre os pilares de biografia dramática e uma ficção quase documental através dessa granularidade das cenas, em alguns momentos feia, mas como todo grande trabalho de cinema, por um bom motivo: o que vemos na tela não deve ser estilizado. Scorsese entende isso e seu fotógrafo atinge o equilíbrio.

Este é um filme tecnicamente impecável que faz suas mais de três horas passar depressa e que ao mesmo tempo deve gerar cansaço na maioria dos espectadores que se aventurarem e assistirem no serviço de streaming. Isso irá acontecer porque não há muitas piadas no filme para amenizar seu clima, que começa pesado e termina insuportável. É daqueles filmes que faz pensar no final, mas em um nível de introspecção que nos impede de verbalizar exatamente sobre o quê deveríamos pensar.

O Irlandês. "The Irishman" (EUA, 2019), escrito por Steven Zaillian baseado no livro de Charles Brandt, dirigido por Martin Scorsese, com Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Harvey Keitel, Ray Romano e Bobby Cannavale. Produzido pela Netflix. Nota: 5/5. Tags: movies. IMDB: 1302006. Publicado em 2019-12-10. Quer colaborar?