O Labirinto do Fauno

2020-01-05, 563 words, 3 minutes

Este é um drama político no final de uma guerra. Os perdedores são perseguidos pelos vilões e uma garota que muito lê enxerga uma versão diferente dessa realidade. Ela escapa através de sua imaginação para um mundo onde será uma princesa porque sua vida se transforma em uma fábula onde os caras maus vencem no final.

O design de arte nos envolve por completo como se estivéssemos lendo um livro infantil cheio de descrições. Note uma simples ampulheta, com terra correndo por dentro e detalhes externos que lembram raízes de uma árvore. Após vermos esse objeto primordial segue uma das sequências mais apavorantes do cinema, porque é descrito em cada visceral detalhe, como se os contos infantis voltassem a conter detalhes sangrentos da época em que eram criados.

Os pensamentos da pequena e jovem Ofelia são transmitidos ao espectador pelas micro-expressões de Ivana Baquero e pela montagem impecável do diretor e roteirista Guillermo del Toro. É dessa forma que compreendemos a intuição de uma criança a guiando para encontrar as melhores respostas para os desafios impostos pela criatura mágica do título.

O Fauno das lendas antigas greco-romanas ganha uma roupagem castelhana e sombria através da produção de arte conduzida pelo artista mexicano Eugenio Caballero. É a combinação perfeita entre arte e computação. Ele falar em espanhol apenas colabora para a riqueza de detalhes, mas é nos seus movimentos fabulescos de mão e tronco que ele conquista nossas memórias do filme para sempre.

Esta é uma produção que sabe usar seus efeitos com economia e persistência. Cada pequeno detalhe que é preciso mostrar está contido em um plano fechado fruto da produção de computadores e artistas digitais, mas o conjunto completo dos cenários, mostrado em planos abertos, mistura tecnologia com arte.

O fundo histórico pós-guerra não é gratuito. Os militares subordinados à ditadura de Franco estabelecem um regime autoritário e violento, e as castas sociais são representadas de maneira superficial como em um conto de fadas. É como se ambos os mundos, da fantasia e da realidade, passassem pelos mesmos conflitos, mas a cada um é dada sua própria interpretação.

Que fotografia maravilhosa Guillermo Navarro, colaborador habitual do diretor, nos entrega neste filme. Ainda que cercado de trevas, os cenários possuem cores vivas o suficiente para impregnar nossos olhos com identidade. O melhor contraste ocorre entre a sala vermelha e o azul sepulcral da casa usada como moradia de Ofelia e sua mãe, grávida do capitão.

O Capitão Vidal, o vilão que poderia ser cartunesco de tão unidimensional, é salvo tanto pelo roteiro de del Toro, que explora as nuances desse personagem, quanto pelo próprio ator Sergi López, que apesar da fachada psicopata demonstra um medo aterrorizante dentro de si, seja por ser na verdade um covarde ou por acreditar que nunca chegará próximo da bravura de seu pai, morto em batalha. Vidal carrega o relógio de seu pai, com o vidro quebrado, o lembrando que sua hora pode estar para chegar, o que seria um misto entre heroísmo e derrota.

O Labirinto do Fauno é um filme que equilibra tão bem seus elementos que a narrativa flui sem vermos o tempo passar. Os detalhes da história seguem sutis. O principal dele é se os adultos sabem que Ofelia está vivendo uma aventura paralela em um mundo mágico de fadas. Nós temos essa resposta próximo do final e ela não soa simplória, mas arrebatadora.

O Labirinto do Fauno. "El laberinto del fauno (aka Pan's Labyrinth)" (México e Espanha, 2006), escrito por Guillermo del Toro, dirigido por Guillermo del Toro, com Ivana Baquero, Sergi López e Maribel Verdú. Nota: 5/5. Tags: movies. IMDB: 0457430. Publicado em 2020-01-05. Quer colaborar?