Rocketman

2019-12-03, 652 words, 4 minutes

Diferente do burocrático Bohemian Rhapsody, cujos títulos das músicas, sua concepção e sua letra jamais nos permitem adentrar em um verdadeiro drama de quem já tem fama e dinheiro, Rocketman da metade para o final se torna um mergulho íntimo e doloroso para dentro das dores de um ser e de sua existência.

A energia que o ator principal nos remete através da figura do cantor britânico Elton John nos faz lembrar por contraste da situação incômoda que Rami Malek nos deixa, ainda que de forma involuntária, com seu Freddie Mercury sanitizado. Aqui não há esse controle, e é justamente a falta de controle que permite nos aproximarmos desse ser humano, como todo ser, único. Taron Egerton, da série Kingsman, possui grande mérito pela sua performance estonteante, e maior mérito, portanto, o diretor Dexter Fletcher, por escolhê-lo para o elenco.

A direção de arte, coordenada por Tim Blake (de O Garoto de Liverpool), nos faz querer evitar os duros anos 60 que John passa sua infância lhe sendo negada a mínima afeição dos pais, e querer viver para sempre nos aconchegantes, liberadores e hippies anos 70 em Los Angeles, uma L.A. que é o oposto da sensação em Era Uma Vez… Em Hollywood (pois Tarantino é o artista da violência em detrimento das sensações). E cada novo espalhafatoso figurino vestido por John, parecendo um capricho de quem quer ser inadequado para mostrar a si próprio, vira o disfarce perfeito de quem está sendo esmagado pela própria couraça que criou para se proteger.

O seu amigo compositor das letras, Bernie Taupin, mesmo não fazendo parte integrante da história entrega tanto em tão poucos momentos que ele não soa deslocado e itinerante, mas como o único refúgio de sanidade em uma vida cercado de tanto ódio e falsidade, até em seu próprio lar. O ator Jamie Bell entrega Bernie como um porto seguro eventual em meio à loucura pela qual o talento inegável de John representa um perigo iminente em uma vida problemática desde a infância, mas que é potencializada por fama e dinheiro.

Para entendermos essa bad trip as transições de cena cada vez mais rápidas e cada vez com menos profundidade de campo do diretor Dexter Fletcher marca uma viagem introspectiva sob o efeito de todas as drogas ao mesmo tempo que é uma parte itinerante meteórica na carreira do músico. Sua mescla entre os diálogos e os personagens performando os números musicais do filme é triste e doloroso. Este não é um filme para te deixar para cima, mas para entender por que tantas pessoas famosas se matam ou ficam eternamente para baixo.

Não duvidamos em nenhum momento que aquelas frases horríveis e dolorosas ditas pelas pessoas mais vitais para sua sanidade, sua mãe e seu namorado/empresário, de fato não tenham sido ditas. A bem da verdade, o único resquício de incredulidade repousa em entender que o real Elton John se permite uma caracterização tão crua em sua biografia, e ao abrir a porta de seu lar e dos suas emoções mais íntimas demonstra uma coragem que vai além do simples sair do armário. Este não é um filme, como o do Freddie Mercury, que trata a homossexualidade ou a liberação sexual de maneira especial e asqueirosa, mas apenas como parte de uma personalidade complexa tentando se expressar. E a dor quando percebemos que isso não é mais possível depois que você passa a valer 25 milhões de libras é forte demais para ser ignorada pelo espectador.

Rocketman é o anti-Bohemian Rhapsody. Todas as virtudes por trás do longa escancaram os defeitos inerentes da produção dirigida por Bryan Singer. Enquanto a biografia de Mercury parte do princípio de explicar a razão de existir tanta fama e sucesso por trás da banda inglesa, o filme desse pianista britânico vai no sentido oposto, tentando entender como é possivel que em meio a tanta fama e dinheiro ainda possa existir um ser humano completo.

Rocketman. "Rocketman" (Reino Unido, Canadá e EUA, 2019), escrito por Lee Hall, dirigido por Dexter Fletcher, com Taron Egerton, Jamie Bell e Richard Madden. Assistindo para o top10 2019. Nota: 4/5. Tags: movies. IMDB: 2066051. Publicado em 2019-12-03. Quer colaborar?