Salta, 2018

Jul 4, 2018

A região de Salta é menos conhecida pelos amantes de vinhos argentinos, mais acostumados a Mendoza e suas ruas paradisíacas em pleno deserto. Mas Salta tem outro espírito, mais nativo, e mais charmoso, que revela como a Argentina, como todo país, é um aglomerado artificial de diferentes povos e culturas, e como o vinho, feito em um solo impossível de dar vida à uva, expressa a alma de suas gerações.

Ano passado conheci a região em uma integração de vôo complicada entre São Paulo, Buenos Aires e a cidade de Salta. Pela Argentina você irá perceber duas coisas: 1) as províncias possuem uma capital com o mesmo nome (como aqui em São Paulo) e 2) argentinos querem que você passe por Buenos Aires de qualquer jeito.

De qualquer forma, pela Argentina há dois aeroportos por onde é possível chegar próximo da região de vinhos, que gira em torno da cidadezinha (“inha” mesmo) de Cafayate, na província de Salta: em Salta (cidade) ou Tucumán, na província vizinha. Ambas as capitais possuem estradas que conectam a Cafayate, e ambas possuem companhias de ônibus operando por esses caminhos (é só chegar no guichê e pedir pelo destino de Cafayate, geralmente há três ou quatro viagens por dia; se não souber qual companhia pergunte em qualquer guichê; quando fui por Salta operava a Flecha Bus e por Tucumán a Aconquija).

A região é bem montanhosa e existe praticamente no meio da cordilheira dos Andes. Indo por Salta, na Ruta 40, o caminho passa por diversos cartões postais, como a Garganta do Diabo. Um trajeto de tirar o fôlego (a primeira imagem deste texto é de lá). O caminho por Tucumán é mais longo, cerca de cinco horas de ônibus e uma parada no meio, e reserva algumas paisagens bem interessantes também. Ambos os caminhos sobem e descem por montanhas. Para quem já fez o trajeto Santiago/Mendoza irá se lembrar mais do caminho de Salta pelas similaridades com o clima desértico. Por Tucumán há mais vales no meio que são uma surpresa. Se pegar o ônibus peça para ir na frente. Comprando com mais antecedência há chance de ir nos primeiros assentos de cima (são dois andares) e a vista vale a pena.

Sobre dinheiro, Salta e Tucumán trocam reais. Cafayate apenas dólar. Em Salta e Cafayate procure pelo Banco de La Nación Argentina e peça para “cambiar reales”. Em Tucumán compensa buscar a rua desse mesmo banco e buscar por uma casa de câmbio de rua. Não é clandestina, eles emitem recibo e tudo. Aliás, use notas de moedas sem rasgos nem rasuras; eles são muito chatos com isso, principalmente nos bancos. Procure por “cambio” no Google Maps e vai achar a rua dos bancos.

É possível ficar alguns dias tanto na cidade de Salta quanto Tucumán. Ambas possuem um aspecto meio interiorano, mas muito movimentadas. Possuem museus, vida social, restaurantes interessantes (em Salta havia um árabe sensacional), sorveterias, etc. Há bons parques e ruas comerciais. Não fique panguando, são cidades grandes onde pode acontecer como em São Paulo: ser assaltado, seu vacilão!

Já em Cafayate… bom, a cidade tem uma rua principal, que é a Ruta 40, que corta as sete quadras da cidade. A maioria das vinícolas fica na própria cidade, podendo ir caminhando tranquilamente até elas. As outras pode ir e voltar de táxi, em caminhos que variam entre 4 e 15 km. Se for do tipo caminhante ou ciclista (há vários hostels e agências de turismo que alugam bicicletas) pode fazer o trajeto de ida e/ou volta andando/pedalando, mas muito cuidado com hidratação; tenha sempre consigo água. Isso é um deserto, a boca racha e o organismo passa mal sem água andando por alguns minutos.

Quase todas as vinícolas possuem visitação e degustação, sendo que visitas são gratuitas e degustações geralmente não. Os horários são quase padronizados e ficam mais tempo abertas dias de semana. Verifique com agência de turismo ou a secretaria na praça principal. Os hotéis também costumam ter essa informação com um mapinha tradicional da cidade. Pergunte.

Por falar em hotéis, lembre se de ter pesos em espécie para pagar pela estadia. Dinheiro em espécie em Cafayate nunca faz mal, apesar de vinícolas e restaurantes mais visados aceitarem cartões de crédito. E se algum hotel, em qualquer cidade argentina, puder aceitar cartão Internacional, essa é sua chance de não pagar uns 20% de impostos. Há uma lei que exime estrangeiros dessa taxa. Bom, pelo menos hoje, 2018, há. Nunca se sabe. Na dúvida pergunte.

Além das vinícolas há mais lugares para aventureiros que gostam de caminhar, como a Quebrada das Conchas, que eu recomendo se tiver tolerância média a caminhar um ou dois kms e ficar algumas horas sem ir no banheiro. Também há outros lugares para quem gosta de comer e beber, como a queijaria local, há apenas 2 km do centro com o melhor queijo de cabra que já comi. A paisagem por lá também é fantástica. E eles fornecem embalagens a vácuo e com indicador de precedência para poder levar em vôos Internacionais (se a legislação atual permitir).

E por falar em permitir, fora os limites de peso e volume das companhias aéreas, vinhos para despachar podem ser levados a granel, e com você há o limite de cinco garrafas de 750 ml. Eles levam isso relativamente a sério, fui parado uma vez, mas convenhamos: dá pra trazer muito vinho se você embrulhar direito.

Além de vinhos e queijos Cafayate está bem servido de pelo menos cinco sorveterias com diferentes tipos de sorvete (helado) de doce de leite (dulce de letche) para todos os gostos. O sabor regional são os sorvetes com gosto das uvas locais: torrontes e malbec. Se gostar de conversar com locais vai adorar a sorveteria da Miranda, a senhora que inventou esses vinhos. Ela geralmente está por lá, distribuído uma poesia que fizeram dela e seu sorvete.

As novidades da cidade não param por aí. Na rua principal ainda há uma cervejaria artesanal na praça que serve pipoca como aperitivo para suas cervejas blanca, negra ou rubia, e logo após a praça uma fábrica de alfajores artesanais com loja embutida. No balcão há vários sabores e também bombons muito bem feitos, que nada lembram os doces meia-boca daquela vizinha que vende trufa ou os industriais Cacau Show e derivados.

Por falar em cacau, faça chuva (essa foi boa!) ou faça sol, tenha sempre consigo seu batom com manteiga de cacau (fácil de achar na drogaria da praça principal). Tanto no calor como no frio seus lábios podem rachar facilmente por causa da baixíssima umidade da região. Lá chove umas 4 vezes ao ano.

Na primeira visita a Cafayate é possível conhecer praticamente tudo em uma semana e dedicação. Mas quem é que está com pressa?

Wanderley Caloni, 2018-07-04