Seguindo o Coração

2019-11-26, 619 words, 3 minutes

Este é um Antes do Amanhecer feito com diálogos medíocres e um elenco menor que Ethan Hawke e Julie Delpy, que nasceram para seus Jesse e Céline. De certa forma Seguindo o Coração ironiza a perfeição com que os filmes de Richard Linklater trata seus adoráveis personagens se desenvolvendo. O realismo por trás das falas do casal de Before Sunrise é apenas aparente, pois funciona bem demais por muito tempo.

Já neste filme do diretor Aadish Keluskar existe um ultrarrealismo de uma relação abusiva que se arrasta por um ano em diálogos muito mais pé-no-chão, mas igualmente condensados no espaço de um dia para enfatizar os papéis de vilão e vítima de maneira a não esquecermos quem é a vítima. E não há muito o que fazer, pois o filme inteiro é tomado por esse sentimento. A única maneira de evitar é parar de assistir, um desejo que pode surgir em alguns momentos no começo, mas que tende a desaparecer conforme avançamos para o final.

A câmera de Keluskar desfila pelo casal de nome desconhecido em uma Mumbai viva e sem preparo de filmagens, pois seria absurdo parar uma de suas avenidas mais movimentadas por vários quarteirões, que é onde o filme começa. Mas a câmera desfila de uma maneira caótica, e vem à mente a desconfiança de que ela está desviando de transeuntes que não foram previstos no trajeto. Às vezes olhamos para a margem do rio, outra para a avenida, e pensamos mais nisso do que o que essas pessoas estão conversando, pois não interessa tanto assim o texto, mas sim suas personalidades e seus objetivos tão díspares.

É um casal onde o homem é dominante. Ele fala muito sobre si, julga as pessoas em volta, a sociedade, o governo, e é incapaz de perceber o que está fazendo com esta pobre moça. Ou talvez até perceba, mas no fundo ele não liga, pois ela é feia, não tem muitos atributos desejáveis em seu corpo e seu único motivo em estar com ela é o sexo fácil disponível a qualquer hora.

Ela surge como uma mescla entre a mulher independente e a antigona submissa que precisa se casar por ordens da mãe, ordens implícitas ou explícitas. Essa pressão ainda existe na Índia, mesmo nas grandes cidades, e pode ser vista em outros filmes recentes, como Retrato do Amor, onde um fotógrafo amador precisa arrumar uma pretendente para exibir para sua avó antes que ela morra.

Estamos olhando para uma vítima de abuso físico e psicológico em sua dolorosa escalada em busca de sua libertação, pois há de haver uma. Esse casal nunca deveria estar juntos, como toda Mumbai e todos nós, espectadores, podemos testemunhar. Mas apesar dela ser independente financeiramente não consegue viver sem alguém, mesmo que este alguém a maltrate como a um cachorro abandonado que ninguém liga, não por ser mulher, mas pela idade e por não ser bonita a ponto de chamar atenção.

Seguindo o Coração observa tudo isso e exala tanta ironia por se achar esperto demais que acaba por se auto-sabotar em alguns momentos de reflexão pós-filme. Através de situações reais demais para ser verdade ele nos entrega um plot aparentemente acima de qualquer crítica, pois liga de maneira intensa e única uma história de amor contrária a tudo que Hollywood tenta vender. Seu próprio título brasileiro já ironiza o que vem a seguir, embora o original em inglês seja mais honesto (Lovefucked). Fico imaginando o que espectadores da Netflix devem achar deste filme da metade para o final, pois sua sutileza acaba no título. Depois fica mais escuro. E não há canções. Apenas uma no começo e outra no final. E a do final, apesar de muito longa, ainda é imperdível.

Seguindo o Coração. "Lovefucked" (Índia, 2019), dirigido por Aadish Keluskar, com Himanshu Kohli, Rohit Kokate e Khushboo Upadhyay. Assisti na Netflix. Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-11-26. Quer colaborar?