Sensual Demais

2020-01-16, 699 words, 4 minutes

Segundo filme da trilogia iniciada por Lovers, que é o quinto filme do Dogma 95, este filme do ator e diretor Jean-Marc Barr ainda possui as influências do movimento artístico iniciado por Lars von Trier de quando o ator participou do Dançando no Escuro: sem edições de fotografia e iluminação, cenários praticamente ou muito próximos do real, sons diegéticos, câmera na mão. O que o dogma não cobre é a parte boa: atores fingindo estarem em um filme amador, se divertindo loucamente com uma história estapafúrdia e divertindo o espectador, incerto se está vendo um soft porn caseiro ou um trabalho de apelo ao cinema íntimo e pessoal, longe das grandes avenidas dos estúdios de Hollywood.

Apesar das técnicas pedestres, a história não perde seu ritmo, e os atores são todos conhecidos e fizeram vários filmes, embora este soe totalmente amador e digno de comparação com The Room, o novo clásico dos filmes ruins. No entanto, ele é coerente, apesar de inchado, mas seu inchaço e suposto amadorismo é o que torna ele adorável, impossível de não gostar, porque ele apresenta um protagonista cativante e um diretor despretensioso, apesar de ambos, ou o mesmo, empenhados. Várias cenas parecem mal feitas, mas cumprem o que um filme precisa para fluir. Isso o torna um ótimo filme ruim.

A história envolve um casamento em ruínas porque o marido nunca pode tocar em sua esposa. Fruto de uma peça pregada ainda na adolescência, a pequena cidade está de olho nos bons costumes para garantir que aquela vida pacata e sem graça continue assim para sempre. O que muda a rotina de cabeça pra baixo é quando surge uma francesinha com “sexo livre” estampado em sua testa. Um prato cheio para Lyle, que garantia o funcionamento adequado dos seus hormônios se masturbando no meio do milharal. Agora ele pode sempre pedir a ajuda da sexy Juliette.

Os segredos por trás do passado de Lyle vão se desvendando conforme a cidadezinha vai acordando para a presença de Juliette. Enquanto isso acompanhamos várias cenas de sexo entre os dois, mas apesar da nudez gratuita não são cenas picantes. Jean-Marc filma tudo como se não soubesse ao certo o que torna uma cena picante, mas a cadência na edição e no movimento da câmera dá a impressão de que o filme vai piscar a qualquer momento para o espectador e dizer: “pensou que fosse um filme ruim, mesmo, né”?

Mas o ator Jean-Marc abraça a causa, e dança no bar da cidade de uma maneira que não consigo descrever em palavras, mas que é exagerado demais para fazer sentido, ao mesmo tempo que é exagerado demais para ser fingido. Esta é uma atuação que está sempre na corda bamba entre o amadorismo e o controle absoluto de uma coleção de vídeos caseiros. E Lyle é o epicentro dessa bagunça organizada. Ele sorri quando vê a francesinha. É incapaz de se chatear com qualquer coisa. Ele é burro demais para isso. E pessoas burras demais são as mais felizes.

Há várias pontas somadas de Rosanna Arquette, que faz a esposa de Kyle. Ela também se masturba às escondidas, pois a penetração com o marido é impensável. Ela também participa de cenas de nudez, porque no fundo este filme precisa se pagar. A sobrinha de Rosanna, Patricia, é a atriz mais conhecida da família, mas Rosanna aqui desenvolve a performance mais crível de todas. Ela está muito à vontade na posição de uma viúva que encontrou a única maneira de encontrar outro partido e se manter viúva. Sua hipocrisia é a mais deliciosa do longa.

Eu não sei bem o que motivou a atriz Élodie Bouchez em fazer a francesinha Juliette nesse filme, mas ela é tão descartável que parece estar de férias da profissão. Nos faz pensar em o quê define o cinema como indústria, e em que momento nós perdemos esse contato mais íntimo com a arte de contar histórias pelo audiovisual. YouTubers contemporâneos abusam da edição e da qualidade de vídeo enquanto um cineasta como Jean-Marc Barr regride décadas para tentar buscar a resposta. E Bouchez se diverte no processo. Há algumas questões interessantes nesse filme, mas poucas são desenvolvidas. Quero mais filmes como esse.

Sensual Demais. "Too Much Flesh" (França, 2000), escrito por Pascal Arnold e Jean-Marc Barr, dirigido por Pascal Arnold e Jean-Marc Barr, com Rosanna Arquette, Élodie Bouchez e Jean-Marc Barr. Da série de DVDs que pegamos sem querer, pela duração. Nota: 4/5. Tags: movies. IMDB: 0226540. Publicado em 2020-01-16. Quer colaborar?