Verão De 84

2019-12-17, 711 words, 4 minutes

Após os anos 80 tudo mudou, e por isso este não é um filme espetacular sobre um serial killer, nem um resgate aos lúdicos anos mágicos. É mais uma repaginada sobre o que mudou desde então, quando os mocinhos e vilões deixaram de serem fáceis de reconhecer. Ou se era um ou outro. Agora heróis como Walter White são o mais comum e família feliz e perfeita existe apenas nos comerciais e nas redes sociais.

Há uma tarefa em desmistificar essa década, que é vista como perfeita por adultos que nunca a viveram. Ela não é mágica e perfeita como nos filmes de Spielberg, até porque se você se lembra de todas as partes do filme desse diretor vai perceber uma proximidade com o mundano que nos esquecemos de apreciar. E assim como os que endeusam os tempos da ditadura há uma certa idealização de uma geração que convivia com os mesmos problemas que nós. E não, o celular não estragou a infância dessa garotada.

A direção de arte de Summer of 84, assinada por Catriona Robinson, é um primor de detalhes catalogados em estúdio que ganha vida graças à fotografia não exatamente saudosista de Jean-Philippe Bernier, mas antes imersiva. Note como as cores básicas viram elementos para pontuar a paleta, mas nunca são iluminadas pela mágica da preguiçosa pós-produção, que transforma tudo em mais do mesmo, como visto em Stranger Things. Nós queremos viver na época criada pelas equipes de Robinson e Bernier, e o início do filme é vital por nos permitir ser inseridos naquele mundo aos poucos e sem pressa. Não é correto apressar espectadores já quase vomitando de tanto conteúdo 80’s para um repeteco.

Essa lógica de aos poucos segue nos personagens-mirins, que são sequer estereótipos, mas símbolos de todos os personagens já vistos nos filmes da época e sobre a época. Isso não é ruim. É delicioso participar mais uma vez de uma aventura da “gangue da rua” movida bicicleta e walkie-talkies, principalmente quando esses elementos estão aí para sabotar essa impressão errônea que muitos irão ter de ser mais uma aventura saudosista.

Saudosismo está muito longe da verdade por trás do trabalho desses três diretores, que já trabalharam juntos em outros projetos (como Turbo Kid) e aqui estão prontos para dar vida ao roteiro assinado por Matt Leslie e Stephen J. Smith, que não parecem se esforçar muito para serem econômicos nas descrições e nas cenas, mas que exatamente por isso, ainda que inadvertidamente, se crie essa atmosfera falsa de revival enquanto bem nas entrelinhas mais escuras se constroe a mórbida diferença entre nosso imaginário audiovisual e a vida real, vista sob os olhos de espectadores da década 2010 dispostos a colocar tudo isso abaixo.

A história é básica: garotos investigam, puxados por um maluquinho conspiracionista, o possível envolvimento do policial do bairro nos assassinatos em série de garotos de idade semelhante a deles na região. Quanto mais a fundo os garotos vão, mais descobrem que não há nada que incrimine o aparentemente normal e quase simpático Wayne Mackey (um trabalho refinado de Rich Sommer). A vergonha alheia vai tomando conta dos meninos, mas você já sabe o final. Depois de termos descoberto o drama pessoal de cada um deles entre as quatro paredes de suas famílias não tão perfeitas assim, o longa passa a se tornar mais pesado e desesperançoso. E finalmente a mensagem está sendo entregue.

É preciso uma certa coragem para empreender um trabalho tão minucioso e bem produzido para nos entregar quase nada de novidade, ainda mais quando essa novidade é um belo de um adeus ao saudosismo da década mais amada atualmente. Todos os objetos que vemos em cena para nos fazer lembrar com carinho desses tempos vai se revelando como uma isca infame, embora não muito arrebatadora. Summer of 84 é sutil demais para chamar atenção para seus detalhes, exceto a reviravolta final, que destoa de todo o resto do filme.

Como consequência, devemos nos apaixonar novamente pela época para finalmente a destruirmos. Como o protagonista e narrador afirma, existe um serial killer morando perto de cada um de nós. A questão é que não é apenas isso o perigo de apenas viver a perfeita vida americana entre quatro paredes quando divórcio, violência e apatia tomam conta da sociedade.

Verão De 84. "Summer of 84" (United States e Canada, 2018), escrito por Matt Leslie e Stephen J. Smith, dirigido por François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell, com Graham Verchere, Judah Lewis, Rich Sommer e Caleb Emery. Mais um da lista de filmes para ver e elencar no top10. Nota: 4/5. Tags: movies. IMDB: 5774450. Publicado em 2019-12-17. Quer colaborar?