Vingadores: Ultimato

2019-10-27, 1195 words, 6 minutes

Está resolvido o mistério de por que havia tanta preocupação com spoilers vindos dos irmãos Russo, diretores do filme, a respeito de “Vingadores: Ultimato”. O clímax desse longa metragem de 3 horas e 1 minuto precisa ser visto em primeira mão, sem nenhum amigo te dizendo o que vai acontecer, porque de outra forma toda a magia construída ao longo desses incontáveis filmes não será a mesma. E se você, fã da Marvel, concorda com o que acabei de dizer, deve concordar também que revisitas a este filme serão inúteis, pois o efeito supostamente catártico que seus idealizadores imaginaram para o grand finale só pode ser aproveitado uma vez apenas, sem spoilers, e isso quer dizer que se você foi correndo assistir à segunda versão lançada logo depois nos cinemas para arrecadar os últimos milhões que faltavam para a quebra do recorde de bilheteria mundial (sem correção inflacionária), deve entender que não foi para seu próprio prazer, pois não ganhou nada além do que já viu. O seu prazer implícito não estava ligado nem à arte nem ao entretenimento, mas em prestar um serviço financeiro a uma corporação que detém a grande maioria do mercado mundial de fantasia, o verdadeiro monopólio de blockbusters deste século, um gigante que em processo semelhante aos Vingadores do filme, também se formou a partir da montagem de vários outros gigantes, um a um, dando origem ao momento que menos requer imaginação nos incríveis efeitos digitais que invadem nossos olhos na telona dos cinemas.

A aventura idealizada por tantos roteiristas e diretores é um capítulo inédito na indústria. Nunca tantos bilhões se moveram para empreender tamanho parque de diversões para adultos consumidores de quadrinhos e todos os seu derivados. Quer dizer, os leitores de HQs foram os primeiros a monetizar essa empreitada, mas com apenas eles não seria possível continuar fazer jorrar a cornucópia mágica de dinheiro. Dessa forma, novas atrações foram sendo incluídas, primeiro em uma mídia, depois na outra, às vezes em ambas, com o objetivo de aumentar o leque de fãs. É a inclusão social do gênero fantasia. Agora há super-heroínas lado a lado com a masculinidade tradicional dessas obras, apelos aos valores familiares de alguns personagens, conceitos de amizade no estilo My Little Pony enfatizados… esse estilo de amizade tem um grande atrativo, pois ele não requer muita afinidade entre os personagens. Alguns, como Tony Stark, podem no início querer apenas fama, dinheiro, poder, mas aos poucos os princípios de cada super irá convergir para o bem em comum, seja pela própria natureza da história ou porque algumas mudanças na personalidade podem ocorrer em um nível subconsciente, porque no fundo quem é fã desse universo precisa que isso seja verdade. A mensagem implícita dessa convergência nunca pode ser cínica como o mundo real. Ela precisa estar contida na mesma bolha que o mundo dos pôneis: “Nós, fãs da Marvel, somos inclusivos, então todos os supers vão ser super-amigos”. Por um simples motivo óbvio: mais heróis na mesma produção gera mais espectadores, fãs deste ou daquele herói, na fila comprando ingresso. Super-heróis podem ter suas diferenças de vez em quando, porque é divertido vê-los brigar por alguns minutos; mas, no final do round, a amizade vence. Porque a amizade é mágica.

E é por isso que a partir da primeira parte do filme, onde todos dão as mãos por um bem comum, fica fácil imaginar um mundo onde, apesar da metade da população mundial tenha sua existência exterminada, em meio a um caos social que se estendeu por cinco anos, esses super-amigos arrumem forças para lutar novamente na última esperança que lhes resta. E se não for isso, não haverá salvação. E, coincidência, eles têm a poção mágica contadinha que irá dar essa última chance a esses protótipos de Superman. Digo protótipos porque são necessários vários deles para combater o mal, mas todos eles possuem o gene da retitude moral. E, diferente da época que Christopher Reeve alçava voo, nenhum deles segue mais a ordem e a justiça defendendo os valores americanos. Não fica explícito isso, mas se entende o recado conforme a figura de Capitão América é posta mais e mais em escanteio. É a derrocada dos Estados democráticos e a vinda da super-heroína, que vende melhor e tem marca registrada: Capitã Marvel®. Ela corta o cabelo do jeito que ela quiser e ainda fica linda e brilhante. Ela é o ser mais poderoso junto do mega-vilão Thanos, mas é tão poderosa que só ela pode decidir intervir no destino da humanidade e do universo. Ah, e caso esteja se perguntando, não, ela não precisa depilar as axilas. Não que alguém se importe.

Os aspectos técnicos sequer precisam ser exaltados tamanho o capricho da pós-produção. E esta é uma aventura que divide bem seu tempo entre diálogos que amarram as tramas de aventuras passadas e entregam um pouco de conforto à despedida dessa fase que saberemos que irá ocorrer assim que terminar este filme, e a ação que estamos todos esperando, onde finalmente vemos o/a nosso/a super favorito/a dando umas porradas nos vilões com roupas monocromáticas para fácil detecção e sem rostos humanizados para serem assassinados sem qualquer remorso (e sangue). Muitos compararam os 2 minutos dessa batalha épica com o final da trilogia nos cinemas O Senhor dos Anéis, o que nos diz mais sobre o espectador de hoje em dia do que sobre esses dois filmes. O espectador de hoje enxerga um significado essencial equivalente entre a batalha entre super-heróis cujos poderes relativos são sempre difíceis de estimar e cuja bússola moral está permanentemente apontando para “Amizade é Mágica” como um mantra mal elaborado para jovens mal resolvidos, e uma batalha que reúne com grande esforço diferentes raças lutando pela chance de sobrevivência de seus povos em paz e sem escravidão. Não é nada justo colocar na mesma balança a maldade visceral e causadora de sofrimento real que define a figura de Sauron com um ser extraterrestre grande e roxo cuja única ambição é destruir para construir, uma filosofia tão profunda quanto os livretos de auto-ajuda de Augusto Cury.

“Vingadores: Ultimato” entrega com louvor o que ficou devendo para seus fãs, mas para o cinema ele deixa um gosto ruim na boca. Às vésperas do final necessariamente feliz, ainda que às custas de um sacrifício ou outro que soa como término de contrato com alguns dos atores de mais longa data, o sentimento geral, que entende filmes de super-heróis como uma pequena parte da vasta possibilidade da arte, mas ainda arte, é um certo receio de que a próxima fase do Universo Marvel não seja tão diferente do que acabamos de ver nos últimos 11 anos. Uma vez que a bilheteria continue respondendo, não há motivos comerciais para se alterar o modelo de sucesso de seus filmes-capítulos, e a única responsabilidade que os chefões da indústria possuem no momento é entregar mais ossos ao público cativo, seja pelo bem da diversidade, protagonismo de minorias, levante contra microagressões ou qualquer moda que estiver ganhando volume de massa, que se traduzirá em novos recordes de bilheteria. Espero que esteja errado, e que este seja um final de um projeto ambicioso. Feliz ou não, mas um final.

Vingadores: Ultimato. 'Avengers: Endgame' (EUA, 2019), escrito por Christopher Markus, Stephen McFeely e Stan Lee, dirigido por Anthony Russo e Joe Russo, com Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Benedict Cumberbatch, Chadwick Boseman, Brie Larson, Tom Holland, Karen Gillan, Zoe Saldana, Evangeline Lilly, Tessa Thompson, Rene Russo, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Tom Hiddleston, Danai Gurira, Benedict Wong, Pom Klementieff, Dave Bautista, Letitia Wright, John Slattery, Tilda Swinton, Jon Favreau, Hayley Atwell, Natalie Portman, Marisa Tomei, Taika Waititi, Angela Bassett, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, William Hurt, Cobie Smulders, Sean Gunn, Winston Duke, Linda Cardellini, Maximiliano Hernández, Frank Grillo, Hiroyuki Sanada, Tom Vaughan-Lawlor, James D'Arcy, Jacob Batalon, Vin Diesel, Bradley Cooper e Gwyneth Paltrow. Assisti na Baía do Pirata. Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-10-27. Quer colaborar?