2 Perdidos Numa Noite Suja

2019-09-06 · 3 · 597

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este filme é baseado em uma peça antiga de Plínio Marcos, mas isso você já sabe nos primeiros minutos da trama, que se passa com duas pessoas que ficam paradas no mesmo lugar falando muitas coisas da vida. Ou seja: teatro. Este também é um remake, pois a peça original também originou um filme de 1971 com o mesmo nome, dirigido por Braz Chediaz. De qualquer forma, este é um filme não-cinema, cujo objetivo é apenas nos fazer refletir sobre a vida.

Ele faz isso colocando dois brasileiros em terra estrangeira: Nova York. Tonho, um mineiro que sai do país para melhorar de vida, acaba preso e depois sem emprego, mas continua escrevendo cartinhas para a mãe como se ele estivesse na crista da onda. Paco, uma jovem garota que fala com a boca enrolada para parecer um menino e que tenta a todo custo ser malandra, mas lhe falta o sotaque carioca. Paco, ou Rita, seu nome verdadeiro, parece paulista e revoltadinha com os pais por um motivo que nunca surge à superfície.

Ela é interpretada por Débora Falabella e diminui o filme de tal maneira que não nos importamos com toda aquela farsa. Ela é fake, como se diz hoje, da ponta de seu gorro até a última pedra cravejada da bota que comprou para enfezar mais ainda Tonho. E Tonho, interpretado com um pouco mais de vivência por Roberto Bomtempo, mantém as rédeas do pouco realismo que existe nessa história.

Ambos são figuras estereotipadas para refletir o brasileiro que existe em cada um de nós, ou pelo menos isso é o que se imaginou na época que a peça foi escrita e o filme foi adaptado. Há uma certa vontade dos artistas locais em glorificar a malandragem e vitimizá-los para que sejam justificadas todas as barbáries. Paco e Tonho é uma mistura desse desejo, pois não existem heróis nessa jornada, apenas potenciais criminosos movidos pela necessidade do momento.

Mas uma vez que essa necessidade passa a girar em torno do orgulho de Tonho, que não suporta a ideia de ser deportado como um criminoso por ter seu green card expirado, começamos a estranhar tanto orgulho em uma espécime de um povo vira-latas. Não é do nosso feitio, apenas da classe média local, que sofre e faz questão de dizer, mas mantém o orgulho intacto, ou pensa que mantém.

Os discursos dessa história teatral que “gira em torno das reflexões de dois personagens irreais que tem por objetivo nos fazer refletir na complexidade da sociedade” acaba desmoronando em uma análise de por que este filme é tão chinfrim, só nos faz pensar em seus defeitos de caracterização e não nos faz acreditar em um ideal sequer. E a resposta está em outro continente, na Europa, no cinema francês, que gosta de se desfazer da humanidade porque acredita, no fundo de seu âmago, que ser humano não vale muita coisa. Mas por algum motivo os pobres criminosos valem.

Mas não aqui. 2 Perdidos Numa Noite Suja são mais sujos que perdidos. O filme adaptado de José Joffily em uma época de renascimento do cinema nacional consegue pelo menos demonstrar que pode existir uma podridão escondida em cada um de nós, sem no entanto conseguir um personagem com carisma o suficiente para nos identificarmos. O exercício se torna fútil, então, embora assistível, foi feito em terras ianques para ganhar legenda e se tornar internacional. Assistível, sim, mas não por muito tempo. 100 minutos foi tempo demais. Já não aguentava mais ver como Paco, ao provocar Tonho de todas as maneiras, adorava apanhar de seu companheiro de “cela”.

Two Lost in a Dirty Night (Brazil, 2002). Dirigido por José Joffily. Escrito por Paulo Halm, Plínio Marcos. Com Débora Falabella, Roberto Bomtempo, Guy Camilleri, Theodoris Castellanos, John Gilleece, David Herman. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·