A Bailarina

Não é à toa que A Bailarina ficará pouquíssimo tempo em cartaz. Não é pelas férias estarem acabando, mas poderia ser pela falta de cópias legendadas (porque a mixagem de som da dublada é simplesmente impossível de acompanhar). Talvez a palavra mais constante ao assistir a esta animação canadense e que defina o pouco entusiasmo do público em assistir seja: manipulativo. Afinal de contas, o filme irá fazer de tudo para você se envolver na história mais clichê de todas: o herói que persegue seu sonho. E irá fazer isso na França. No começo do século 19. E a protagonista é órfã. E há uma rival rica. E sua tutora de dança é manca e diz "odiar crianças". Não, não. Só falta dizer que o sonho dela é ser bailarina. Oh, não!

Contando sua história de maneira simplista e sempre manipulando nossos sentimentos da maneira mais conveniente e clichê, tudo começa quando a jovem Félicie (Elle Fanning) e o jovem Victor (Dane DeHaan no original, onde deve estar muito melhor do que na dublagem brasileira anasalada e sem ritmo) decidem fugir do orfanato de freiras onde há um senhor mal encarado com olhos vesgos -- olhos vesgos e caretas são uma constante no filme para disfarçar a falta de orçamento na animação -- que persegue os dois de moto em uma sequência supostamente emocionante e dinâmica. Porém... ele está perseguindo com todas as forças duas crianças que estão fugindo de um lugar particularmente desagradável. Onde a madre superiora fala para "engavetar seus sonhos, pois a vida é dura e difícil". Onde conseguiram uma religiosa com tão pouca fé?

Bom, eles fogem, caem em uma Paris construindo ainda sua Torre Eiffel e sua Estátua da Liberdade (que será entregue de presente aos EUA) e o garoto convenientemente se separa da garota para que ela tenha sua própria história achando a escola de dança, sendo expulsa de lá e conseguindo um emprego de ajudante de uma faxineira com dois empregos, sendo o segundo deles na casa de uma megera rica e sua filha mimada e obrigada pela mãe a dançar balé que irão receber uma carta para participarem do processo de seleção da menina que irá fazer parte do elenco de uma peça. A menina rouba a carta, o processo começa e ninguém nota. O tempo passa (alguns dias?) e logo a faxineira e a menina são como mãe e filha. Enquanto isso o garoto vive com um inventor famoso que nunca aparece e seu amigo gordo cuja função na história é.... ser gordo. E ter as piores falas do filme. Bom, isso se você ignorar a amiga vesga da garota, que também dança balé, e estranhamente vai ficando entre as finalistas, e é da boca dela que sai a maior pérola do filme todo: "Eu gosto de você. Ganha dela.".

Basicamente a história é um giro em torno de inúmeros clichês, câmeras lentas e músicas pop. Balé, mesmo, só os mais famosões. Para a garotada. Até o jogo de rivalidade entre dois pretendentes da garota (seu amigo de infância órfão e um... sim, rico e mimado) em um trio amoroso que não faz o menor sentido existir entre crianças e uma história singela demais para isso (e onde o romance sequer se encaixa nas necessidades da heroína). Ao mesmo tempo, temos um instrutor de dança que lembra Dumbledore da série Harry Potter, por sempre torcer para uma escola/alunos específicos e fazer de tudo para que este vençam. Mesmo quebrando todas as regras que vai criando.

O fato é que os diretores Eric Summer e Éric Warin não possuem a menor fé na história e na sua heroína, preferindo investir em jogadas bobas de movimentos do que na verdadeira mensagem do filme (essa, sim, interessante): o argumento da paixão existir por trás de toda história triste de bailarinas de sucesso -- na mesma medida que escritores precisam de um drama -- que é seguramente melhor do que toda essa farofada.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2017-02-01 00:00:00 +0000

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