A Carreira de Suzane

2020-05-19

Um filme de estilo mais antigo por Éric Rohmer, e muito mais curto que os convencionais, com menos de uma hora de duração. Nem por isso ele é simplista. Sua função é nos apresentar os devaneios e julgamentos de um bonito e apagado rapaz, que vive à sombra de seu amigo de família mais abastada, a respeito das intenções para com os dois de uma garota que não é feia, mas que não possui a beleza clássica. Ela vive andando com eles, se tornando dependente de seu estilo de vida mesmo já pertencente à classe trabalhadora. Os três formam um triângulo amoroso dos sentimentos humanos menos nobres.

Este é um filme de um cineasta francês que tem o charme de tornar suas histórias mais próximas de nós, mais reais, e com isso mais profundas. Faz pensar em nossas próprias vidas, os próprios amigos e os próprios erros, principalmente os erros daquela juventude que insistimos em querer esquecer e amar ao mesmo tempo.

Este é um filme que envelheceu engraçado, apresentando atores não em sua melhor forma, em atuações que hoje soam mais equivocadas do que espontâneas. Há momentos que beiram o ridículo, e a dublagem mal sincronizada faz o filme soar amador. Por causa disso é uma história que, apesar de cruel, se torna gentil, pueril, com seu modo singelo e ingênuo de conduzir uma história, seus personagens se tornam simpáticos às câmeras e ao espectador, ou no mínimo criaturas curiosas de observar, ao ponto de continuarmos acompanhando suas curtas aventuras de estudantes sem dinheiro abusando de uma jovem que trabalha para se sustentar e não tem o luxo de receber mesada dos pais.

Nós acompanharíamos esta história nem que fosse pela curiosidade de uma época onde jovens dançavam ao som do pré-rock. É a época que exala uma atmosfera pura, um hiato entre as crueldades da guerra e a fartura que priva a vida de significado. Em preto e branco com uma Paris charmosa não por ser turística, mas por ser pé no chão, é um filme de Rohmer difícil de desgostar.

A Carreira de Suzane consegue ser também uma análise da maldade humana muito sincera. Sobre como nos aproveitamos ao nos vermos com vantagem. O narrador do filme existe pelo mesmo motivo pelo qual Capitão Nascimento é o narrador onisciente em Trope de Elite: ele nos aproxima de quem é condenável aos nossos olhos. Esses jovens são mimados e presunçosos, e sem ouvirmos os pensamentos do narrador eles nos causariam apenas repulsa.

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