A Cor do Paraíso

2019-08-18 · 3 · 506

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Mohammad é um menino cego que precisa frequentar uma escola para deficiente que fica no fim do mundo, na cidade de Teerã. Ou seria o fim do mundo onde ele mora? Contextualizado no Irã, esta fábula escrita e dirigida por Majid Majidi, assim como ele fez em Filhos do Paraíso aborda personagens limitados, pobres de espírito, mas não tendo escolha exceto tendo que viver como cada um de nós.

A direção de Majid Majidi me incomoda muito. Ele recorta suas cenas em quadros que querem dizer o óbvio muito cedo. Ele é exagerado por não ter confiança em seu elenco, e quando o pai de família escuta algo surpreendente de sua mãe a sua cara de espanto faz o filme virar comédia. E Majid está por trás de todo esse maniqueísmo.

Ainda assim, não há como não apreciar a poesia por trás de um garoto cego que aguarda por um pai que o rejeita, e que durante esse tempo salva um filhote de passarinho de um gato e o coloca em seu ninho, subindo em uma árvore mesmo sem enxergar. A alegoria é óbvia, mas aquece o coração mesmo assim.

As cores de A Cor do Paraíso são também alegóricas. Quando pai e filho chegam na aldeia onde moram, o verde do pasto e as diferentes cores das flores que dão origem à tintura das peças que manufaturam na vila dá todo o tom onírico que o filme quer passar. O pequeno Mohammad é puro, bondoso e doce. Ele quer ser justo em um mundo injusto, cercado de cores que ele não consegue ver.

A figura paterna é muito maltratada em A Cor do Paraíso. O pai de Mohammad é egoísta e covarde. Viúvo, se sentem uma vítima das circunstâncias enquanto todos em volta tentam viver da melhor forma possível. Ele gostaria muito que Mohammad um dia desaparecesse ou sofresse um acidente e morresse. Vemos isso em seus olhos, mas o filme não nos faz pensar muito sobre essa simbologia. O espectador comum ficará apenas com raiva deste homem.

Mas por mais maniqueísta e óbvio que este filme seja, ele possui uma ponta de ingenuidade ou de abertura em seu núcleo que nos faz lembrar das histórias bíblicas, estas pequenas relíquias em formato de história, frutos de uma humanidade ainda muito simples, quase uma não-civilização, dividida em tribos e arquétipos bem conhecidos. Por se passar no Oriente Médio, você pode relacionar com o Alcorão ou algo do tipo. Tanto faz. No fundo é uma história atemporal acontecendo sem moral e sem mensagem, mas muito profunda.

Por falar em mensagem, Mohammad procura por um código divino o tempo todo. Pode estar escondido nas folhas que ele tateia, ou no barulho dos pica-paus. Pode estar simplesmente no vento. Ele está sempre prestando atenção. Ele também não entende por que é uma “vítima das circunstâncias”. Tal pai, tal filho.

Quando começamos a entender um pouco mais da fábula ela termina. Eis a vida resumida em poucos minutos: bruta, violenta e sem sentido. Aproveite os raios de sol enquanto pode.

The Color of Paradise (Iran, 1999). Dirigido por Majid Majidi. Escrito por Majid Majidi. Com Hossein Mahjoub, Mohsen Ramezani, Salameh Feyzi, Farahnaz Safari, Elham Sharifi, Behzad Rafi. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·