A Dama de Shangai

2020-05-29

Orson Welles tentando salvar o casamento com Rita Hayworth (spoiler: não deu certo e se divorciaram antes da estreia). Este é um filme noir fora de controle temático e infestado pela visão peculiar de seu cineasta, notório por seu estilo anti-autoridade, que transforma um julgamento de homicídio em uma comédia de erros. Que empresta dezenas de espelhos do surrealismo alemão.

Um plot tão bizarro que próximo do final fica difícil entender o que ele quis dizer com tudo isso, exceto a crítica ao modo de vida dos cheios da grana. O personagem de Wells observa de longe o piquenique regado a álcool e ofensas pessoais e questiona: essa é a forma que vocês se divertem? É para isso que preciso de dinheiro para “ser feliz”? Ele diz isso com um sotaque irlandês que não poderia ser mais forçado. É ridículo toda vez que ele narra sua história, mas se torna quase risível quando ele fala em alguma cena.

Os truques de produção, já manjados para quem viu Cidadão Kane, giram em torno de cenários pintados ao fundo com a personalidade e visão deturpada de Welles: sombras que crescem ou diminuem, uso de tetos e paredes altas, demonstrando a pequenez daqueles seres humanos, peças de um jogo de xadrez fazendo rima com a sala do tribunal, ou colocando os personagens bizarros e ricos ocupando todo o quadro, rindo como lunáticos, transformando a vida em um jogo de pôquer.

É sobre os jogos insanos da humanidade este filme, e não sobre o romance supostamente contido na capa. A liberdade artística de Welles ainda estava presente depois de algum sucesso comercial do cineasta na RKO (que abraçou seu debut com Citizen Kane), mas não sua ambição artística. Todos buscavam ver um próximo clássico, e recebiam um ótimo entretenimento pensante. Mas não era suficiente para seus fãs da época, nem para arrecadar bilheteria.

O riso doentio e amoral do personagem que pede para ele se matar revela a visão do filme sobre essas pessoas, visão essa que estava velada em “Kane” e o que tornou o ápice da ambiguidade do ser humano. Um advogado aleijado que livra homicidas é o mais próximo que podemos chegar de um vilão para o filme, mas este é um noir, então os vilões não aparecem com papéis grudados em suas testas. É preciso sentir a moral pelo cheiro de cigarro, e inalar os tons monocromáticos de mais uma obra que faz valer a escolha do preto e branco.

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