A Economia do Amor

A Economia do Amor, trocadilhos à parte, é também um filme econômico em sua produção. E é quando a arte encontra os benefícios da crise europeia, tanto no assunto quanto no orçamento.

Aliás, os filmes franceses atualmente estão centrados na questão das finanças das famílias, no desemprego e no valor humano. Este fala sobre o processo de separação de um casal, paralisado momentaneamente por falta de dinheiro, talvez o mesmo dinheiro motivo que iniciou o declínio da relação.

Pais de duas filhas, ambos continuam compartilhando o mesmo teto, embora sob as regras de convívio cada vez mais rígidas de Marie. Eles compartilham também, aqui e ali, algumas das tarefas e dos rituais de ter filhos pequenos.

A câmera de Joachim Lafosse percorre os cômodos da casa quase sempre centrado em seu núcleo. A câmera gira de encontro ao interesse do momento. Às vezes é o pai em seu escritório/quarto, às vezes é a mãe sonolenta na sua cama, e às vezes vemos os quatro na mesa da cozinha ou do jardim. Lafosse economiza tanto o movimento que vemos apenas a mesa do jardim do lado de dentro da casa durante a rotina diária.

O filme está particularmente interessado nas ações e reações do casal que ainda têm esperança de voltar, mas que acaba sempre discutindo a respeito da divisão da casa e das mágoas (geralmente financeiras) do passado.

Marie é interpretada com consistência e sutileza por Bérénice Bejo como a parte responsável e racional, o que a torna na maioria das vezes a chata com as filhas. Ela mantém uma feição dura, resoluta, como se tivesse que manter uma decisão pensada por muito tempo e que foi construída por um ressentimento pelo marido que hoje o torna um fardo e alguém que não ajuda a seguir adiante. Marie não é uma megera simplesmente. As nuances criadas por Bejo (e os quatro roteiristas do filme) a tornam uma personagem honesta consigo mesma, mas que não consegue levar adiante a mentira do "amor supera tudo", embora sua mãe viúva, com muita propriedade, lamente para a filha que a geração de hoje em dia prefere jogar fora as coisas do que consertá-las (e isso inclui, claro, as próprias relações).

Já seu marido, Boris (interpretado por Cédric Kahn de uma maneira sobrenaturalmente natural) é o que mais acredita na reconciliação, o que é compreensível: é o lado mais emocional do casal. Atualmente desempregado, seus movimentos lentos e sua forma de se apoderar dos limites de sua mulher não facilitam a relação. Ele insiste que contribuiu muito mais pela família e está recebendo uma porção menor da divisão da casa, seja pelo seu trabalho em reformá-la ou pelo carinho e cuidados de um pai que estava presente nas relações com as filhas. Mas Boris, apesar de ser amável com as filhas e a mulher, carrega o fardo de não conseguir controlar os outros lados de sua personalidade -- como as finanças -- e sofrer não apenas com a ameaça física de seus cobradores, mas com o fato de que isso o levou à eminente separação de sua família, e embora este tente de todas as formas retornar à normalidade, enxergamos em seus olhos e seu jeito curvado que este desistiu de confrontar a realidade.

Interessante como estudo de personagens, mas mais interessante ainda como estudo da geração atual europeia, A Economia do Amor fornece combustível para analisarmos as complexas mudanças em sua sociedade que está aprendendo a duras penas que as crises econômicas atingem em cheio o coração de famílias felizes do jeito que eram. O choro de Marie durante um dos poucos momentos felizes no filme demonstra a perda tanto da inocência quanto da possibilidade de retorno à normalidade.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-11-21 00:00:00 +0000

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