A Espera

A Espera é um filme que mergulha fundo no tema da morte de um filho. Tão fundo quanto a mitologia cristã. Para isso ele entende que é imprescindível a figura de Juliette Binoche, que não é uma madre italiana, o que pode tornar a mensagem confusa ou universal. De qualquer forma, ela manda bem, e as expressões dos seus exuberantes olhos contidos em um rosto envelhecido, mas ainda lindo, faz boa parte do trabalho do diretor italiano Piero Messina valer a pena.

Há uma estética melancólica ao mesmo tempo que moderna no filme, que usa e abusa de construções visuais incrementadas por uma música que mistura o pop e o sagrado. Podemos ver isso em seus próprios personagens. Jeanne (Lou de Laâge) é uma jovem francesinha que viaja com uma mala na mão para encontrar seu namorado italiano. Ela fala melhor italiano do que sua sogra e anfitriã Anna (Binoche) quando esta chegou à Itália, na Sicília. E Pietro (Giorgio Colangeli), o empregado de Anna, é tudo que há de ainda mais sagrado. O italiano verdadeiro, a ponte entre o moderno e o clássico, que não consegue (assim como nós) entender o que está acontecendo com esse mundo feito de mentira criado pela sua patroa em um luto que insiste em resistir, nem que seja até o terceiro dia.

Essas resistências é mostrada de uma forma linda e ao mesmo tempo triste. Vemos ela ouvindo as mensagens do celular de seu filho, e um pequeno close revela o celular preso ao carregador pelo seu fio, da mesma forma com que ela se mantém presa à ideia de não tê-lo perdido. Até closes mais herméticos, como um ovo ainda cru na frigideira, revelam uma sensibilidade profunda em uma história mais que simples: a mãe se recusa a contar a verdade sobre seu filho para a namorada porque no fundo ela também não deseja acreditar.

No entanto, em alguns momentos essas mensagens do filme, apesar de belas, soam exageradas. É claro que Jesus, vinho e água se relacionam intimamente, mas a namorada entrar por completo no lago se torna um ato simbólico, e a mãe preparar um animal regado a vinho (o sangue de Cristo) na véspera da Páscoa se torna um ato explícito. Porém, convenhamos, ambos os resultados são belíssimos, fotografados por Francesco Di Giacomo com uma paleta estilizada, que usa o escuro como proteção dos personagens. Eles fecham constantemente a última janela da casa a abrir um clarão. Em um dado momento vemos apenas o brilho azul de um celular, e logo depois o mesmo brilho refletido no rosto de Anna.

O uso de cores também é fortemente influenciado pela luz. Note como é recorrente que Anna vista uma blusa azul, um tanto esverdeada, e ligeiramente mais escura que outra blusa azul usada por Jeanne. Ambas tomam chá à noite em mais uma das intermináveis conversas que nunca revelam a verdade. As canecas que elas usam são iguais, exceto que Anna usa a com tons escuros, enquanto Jeanne, tons claros. Elas se completam por este breve momento, e vivem uma mentira que, assim como a religião cristã, insiste em torná-la sagrada para todos que ousam desvendá-la.

A Espera é um filme belo quando flerta com o jogo de mentiras de sua protagonista, curioso quando brinca com a mitologia cristã e estilizado e forçado ligeiramente mais do que deveria. A transição gradual entre o idioma italiano e o francês sugere não apenas a proximidade das duas personagens principais, mas o abandono de Anna do que a tornou uma italiana da Sicília, e poderia servir de mensagem sobre o próprio declínio da religião, como sutilmente o filme aponta em um momento onde Pietro, assistindo um canal que falava sobre o Papa, muda abruptamente para um canal onde passa uma comédia antiga. O fato de Anna ter sido a primeira da região a se divorciar também aumenta as chances deste ser o caso. Porém, nunca saberemos com certeza. O trabalho de Piero Messina está hermeticamente fechado através de sua estilização exagerada. O que não deixa de ser curioso, também, pois mais uma vez estamos comparando realidade com religião.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2017-01-16 00:00:00 +0000

reviews cinemaqui movies discuss