A Estrada da Vida

A história é boba. Mas é mesmo? Fellini nos empurra a vida como ela é goela abaixo: bruta, imprevisível e bela. Aos poucos se torna inevitável não observar a natureza humana, estupefatos pela grandeza de uma história tão boba, e tão humana.

Este homem bruto, um selvagem que aprende a ganhar a vida como artista de rua quebrando correntes com o peito, vai buscar a segunda irmã de uma família pobre do litoral. A primeira ele já havia levado, mas ela morreu. A segunda ele compra por dez mil liras, um belo dinheiro por uma criatura feia e patética.

Ela faz caras e caretas. Imita as comédias mudas com sua face. Ela aprende rápido e em alguns anos com a ajuda de outro artista desbrava os mosteiros do universo. Ela apanha, é maltratada, mas permanece com seu dono. Até uma pedra tem uma função nesse mundo. Qual? "Se eu soubesse saberia o que estou fazendo aqui." E simples assim a síntese do filme em um diálogo casual.

Fellini está disposto a imprimir a grandeza de um épico em um drama que não é exatamente sobre a miséria, pois ela é irrelevante frente às relações humanas que ela propicia, e a riqueza que provém das experiências mais extremas de relacionamento. Nino Rota dá o tom com uma melodia que ecoa fácil como um hino, seja pelo trompete ou violino.

Esta é uma superprodução de Dino di Laurentis quando o diretor italiano já era bem famoso. Com Anthony Quinn em uma interpretação que se disfarça de expansiva, mas é bem sutil, e Giulietta Masina, que atua pelo exagero e nada mais. Não sabemos se é uma grande atuação ou mímica.

Wanderley Caloni, 2022-03-20 16:08:19 -0300

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