A Origem

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Christopher Nolan, tanto como diretor como roteirista, tem o dom de traduzir para o espectador as experiências de seus personagens na tela. Vimos isso em Amnésia com a montagem invertida fazendo o papel do protagonista que não consegue se lembrar o que estava fazendo cinco minutos atrás. Em O Grande Truque as trucagens do roteiro são tão ágeis que se assemelham a um número de mágica bem conduzido. E agora em A Origem participamos de um exercício narrativo que consegue unir todas as ideias modernas a respeito dos sonhos, mas que ao mesmo tempo se deixa levar pela metalinguagem e faz uma sutil homenagem ao próprio Cinema.

A história gira em torno de Cobb (Leonardo DiCaprio), um espião que rouba informações sigilosas das pessoas diretamente em seus subconscientes através de uma nova tecnologia que permite o compartilhamento dos sonhos. Até que ele recebe a proposta de fazer exatamente o oposto: inserir uma ideia dentro do consciente da pessoa, algo muito mais difícil de se fazer e que exige adentrar em camadas mais inferiores ainda do ser. Esse "último trabalho" traria de volta sua família, pois ele conseguiria voltar para o país onde estão os seus filhos. No entanto, o fantasma, ou as memórias, de sua mulher morta serão um problema constante no decorrer da missão.

"Brincando" de uma maneira absolutamente controladora com a edição, os pulos entre os sonhos são efetuados com uma precisão milimétrica, entregando ritmo e uma nova forma de ação: a multicamadas. Há uma sequência particularmente fascinante, no momento em que uma Van capota com todos seus passageiros dormindo. Uma viagem psicodélica em torno da noção de gravidade embutida no subconsciente.

Além disso, A Origem também é um pouco de filosofia. A questão que tortura a mulher de Cobb não é fruto de uma mente perturbada, mas possui argumentos bem embasados, que junto da experiência do casal de 50 anos se torna fatal para ambos. Porém, sejamos justos: no universo que o filme retrata, pensar que toda a realidade pode ser um sonho não parece tão disparate assim.

É por isso que os personagens trágicos de A Origem acabam emprestando um pouco do clima "noir" do Cinema, pois seus futuros são sombrios graças ao passado sem volta. O tal do paradoxo espacial explorado pelos "arquitetos" de sonhos possui uma rima na própria estrutura que as coisas funcionam em nossa mente assistindo a equipe se deparando com diversos problemas, um em cada sonho. É dentro desse embate psicológico que reside a tensão de um filme que possui uma ação muito particular, e que provavelmente se revisto de tempos em tempos, irá se mostrar muito mais rico do que apenas um filme de ação.

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