A Passageira

A Passageira pode ser descrito como um melodrama que se aproveita de sua notável qualidade narrativa e técnica para dar ares de ser algo mais artístico. A mesma razão pode ser dada ao dizer que o herói do filme realmente fez um ato bondoso e por isso, independente de seu passado, é digno de aplausos.

Porém, escolher entre um ou outro seria admitir que no mundo uma situação ou é preta ou é branca, e é exatamente isso que o filme tenta evitar e constantemente desfazer em cada reviravolta de sua história. Naquele universo, miséria e violência são elementos cinzas que podem ser utilizados por uma causa, desde que essa causa seja cinza claro ou cinza escuro, dependendo de sua preferência moral.

No entanto, o filme não precisa explicar, por exemplo, que estupro é errado. Aliás, mais do que isso: imperdoável. Isso é o conhecimento comum da sociedade, além de ser a conclusão lógica de qualquer sistema que vise respeitar o mínimo de direitos de um indivíduo. Porém, ironicamente, há aqui um filme que pretende discorrer sobre o assunto e ao mesmo tempo sua história pretende justamente relativizar este conceito tão simples e fácil de aplicar na vida real. E por mais que se disfarce de melodrama, ele se revela em uma última e expressiva frase dita dentro de uma delegacia.

Toda essa explicação é para dizer que A Passageira nunca poderá ser visto como guia moral de uma sociedade saudável, pois suas premissas estão podres desde o começo. Dessa forma, resta apenas sentir pena daqueles personagens e pelo incauto espectador, pois todos estão movidos pelo sentimento de pena e de culpa do começo ao fim.

A história, extremamente bem conduzida e amarrada -- exceto por algumas coincidências exageradas, como um assalto que surge de brinde para revelar a existência de um personagem -- gira em torno da obsessão de Harvey Magallanes (Damián Alcázar) de ajudar Celina (Magaly Solier) a partir do momento que a reencontra. Vemos que aquele homem nutre sentimentos pela bela jovem desde a época que era mantida prisioneira e escrava sexual de seu coronel em uma guerra. Hoje ambos possuem empregos que estão no limite de sua sobrevivência, e como a fotografia escura busca sempre ressaltar, no submundo de uma megalópole e sem esperanças de progresso.

A narração ganha contornos de thriller e se torna tenso não só pela história, mas pela maneira com que o diretor e roteirista Salvador del Solar resolveu usar sua câmera, com closes muito tremidos, mudanças bruscas de luz e cenário. As cenas são conduzidas por uma trilha sonora cansativa e que evoca um lamento por um passado que não se cansa de ocorrer, dia após dia. Um coronel senil (Federico Luppi) pede que um sorveteiro seja revistado enquanto observa o céu azul, inatingível para todos no filme. O mais inacreditável é que ele é atendido, ainda que por um Magallanes receoso. O resumo da estupidez do sistema de autoridade que serve de gancho para o que aconteceu no passado do agora taxista.

Aos poucos percebemos que há excelentes momentos em A Passageira sabotados por um filme que exagera em seu tom melodramático. Vemos que Celina tentou um esquema de pirâmide misturado com auto-ajuda e que é vítima de uma inescrupulosa agiota, que embora não necessariamente ameaçadora, é impertinente e incomoda a honesta moça. A apresentação desse esquema pretende demonstrar como a esperança de um futuro melhor é tão ilusório quanto qualquer culto evangélico de periferia, com as mesmas desculpas usadas por qualquer livro de auto-ajuda (cujo pai-mestre é O Segredo): se não está dando certo, você é que não está acreditando o suficiente.

E dentro da lógica de A Passageira, não há mesmo salvação para nenhum dos envolvidos. Feridos por uma cicatriz que nunca irá sarar, a violência e estupidez de uma guerra agora reflete no caos urbano em que os mesmos personagens precisam lidar da maneira que podem. Resta a eles tentar tocar suas vidas, assim como qualquer ser humano decente. E se a decência lhes foi arrancada pelos atos brutais do passado, é algo que nem todo o dinheiro do mundo conseguirá curar.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-09-17 00:00:00 +0000

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