A Pele de Vênus

Finalmente chega no Brasil "A Pele de Vênus", filme de 2013 do diretor Roman Polanski e que lembra bastante Lua de Fel ao falar das complexidades da relação entre os sexos, principalmente sobre dominação de um sobre outro.

Contando com apenas dois personagens e um cenário, o filme é um longo ensaio para a peça que o roteirista e diretor Thomas (Mathieu Amalric) escreveu como adaptação de um romance do século 19 que lida com o empoderamento da mulher (pelo menos em sua visão). Exausto após um dia de testes com candidatas, todas aquém da mulher que procura, o surgimento da magnética Vanda (Emmanuelle Seigner) no meio de uma tempestade inicia um mini-relacionamento simbólico de uma hora e meia de trama.

Após entendermos o fascinante mecanismo de troca de cenas, papéis e posições de dominação empregados por Polanski, que assina o roteiro junto do dramaturgo David Ives, é fácil perceber que o ponto alto do filme está logo no seu início, onde partimos de uma Vanda completamente tresloucada, ainda que intimista e confiante, e que se transforma quase que instantaneamente na "Vanda" (também é o nome da personagem da peça/romance) que Thomas tanto procurava. Encantado com a moça (para dizer o mínimo), ele participa da brincadeira em que ambos interpretam os personagens da peça, e onde Vanda começa aos poucos a tomar conta do roteiro de Thomas.

É curioso perceber como, por exemplo, Vanda começa palpitando sobre as luzes no palco -- e se mostra habilidosa em configurá-las -- e sobre a posição dos atores em cena, para depois começar a improvisar falas, criar novas cenas e finalmente começar a interferir na vida real de Thomas, um rapaz criado por Mathieu Amalric em um equilíbrio instável de insegurança e passividade que combina perfeitamente com a personagem de Emmanuelle Seigner, precisamente seu oposto.

Aliás, o filme inteiro consegue se resumir em mudanças de cenas -- marcadas pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat e o movimento de câmera de Polanski -- com diálogos da peça e da vida real que vão cada vez mais se mesclando -- sendo que em determinados momentos é impossível afirmar a referência. Abrindo a história real conforme Vanda (a atriz) tece uma crítica não só ao machismo implícito do conteúdo original como também ao seu adaptador, a crítica aos poucos se dirige ao próprio Thomas, e quando menos percebemos a moça já está interferindo diretamente nas ações e reações do sujeito, inclusive em seu relacionamento com sua impaciente noiva que o aguarda para jantar.

No entanto, mais fascinante que a dinâmica fluida do filme, onde até o fechamento de um zíper consegue prender a respiração do espectador da mesma maneira com que a entrega de um envelope em O Escritor Fantasma, é perceber os subtextos dos diálogos, que são ricos em ambiguidade (uma palavra que Vanda "subconscientemente" chama de ambivalência). As tentativas da moça de desmascarar o autor com acusações sobre machismo e abuso infantil são rebatidas em um diálogo particularmente inspirador de Thomas (e, portanto, de Polanski). Ele diz que nossa sociedade empobreceu as questões sexuais e resumiu-as em um problema social. De certa forma, não podemos deixar de imaginar que no fundo é o próprio Polanski mais uma vez se retratando ou tentando reinterpretar o escândalo que tomou conta de sua vida na década de 70, quando foi acusado de abusar de uma menina de 13 anos. Expulso dos EUA, sua "volta por cima" através de um filme histórico ganhador de Oscar (O Pianista) ainda parece não apagar da sociedade norte-americana -- altamente puritana -- a imagem manchada de uma relação sexual que nunca poderá ser explicada, pois pertenceu ao âmago de duas pessoas. O fato de uma delas ser uma pré-adolescente não faria a mínima diferença para Charles Chaplin, nascido em uma época onde isso era comum, mas, junto do assassinato macabro de sua esposa, colaborou para a destruição da vida pessoal de Polanski.

E é através de um filme sobre uma peça sobre um romance sobre uma deusa grega que o diretor parece esconder suas dúvidas e divagações mais pertinentes em uma sociedade cada vez mais reducionista. O passar das civilizações altera o espírito do tempo -- o famigerado zeitgeist -- e as regras sociais, mas talvez a relação de dominação ambígua (ou ambivalente?) entre duas ou mais pessoas nunca mude. Talvez faça parte da natureza humana. O último filme de Polanski, agradável do começo ao fim, talvez seja apenas a ponta de um iceberg de emoções ainda encobertas de tabus e falsos moralismos (a tal Pele de Vênus).

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2015-09-16 00:00:00 +0000

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