A Teoria de Tudo

2018-01-11 · 3 · 522

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Não dá para dizer que o novo filme de James Marsh, que ganhou o Oscar pelo excepcional O Equilibrista e teve seu Projeto Nim rodando os festivais do mundo e ganhando prêmios, faz qualquer injustiça à vida de Stephen Hawking, o brilhante físico teórico que foi acometido por uma doença neuro-motora desde quando jovem, mas mesmo assim conseguiu dar progresso não apenas à sua vida profissional como pessoal. Nem podemos dizer que o ator Eddie Redmayne (Os Miseráveis) faz um mal trabalho retratando o cientista. Porém, há uma maldição que parece rondar toda cinebiografia de pessoas que ainda vivem: o endeusamento de um ícone acaba desumanizando o personagem, o tornando uma mera sombra de um indivíduo (o mesmo pondendo ser dito de sua esposa, cujo livro foi a base para este filme), indivíduo este que para se tornar a figura famosa e amada com certeza teria muito mais facetas que justamente os fãs gostariam de conhecer.

No entanto, o filme se resume em narrar burocraticamente o período da vida de Stephen quando estava se formando em Cambridge e conhece sua futura esposa e passam a ter uma vida de casados após ele descobrir que teria pouco tempo de vida devido à doença já citada. Burocraticamente por não tentar construir qualquer coisa além disso, o que já o torna emocionante em alguns momentos, mas nunca empolgante ou instigante. Não há qualquer relação entre a vida do físico e a vida do pai de três filhos preso à cadeira de rodas. Mas há um questionamento bobo a respeito da não-religiosidade de Hawking e seu destino pouco gentil com sua pessoa.

O que, convenhamos, ocupa tempo demais em tela para uma vida disposta a quebrar conceitos estabelecidos décadas atrás pela ciência. E a própria caracterização da ciência no longa carece de sutileza em simplificações e momentos catárticos inevitáveis, mas forçados. De qualquer forma, não deixa de ser notável a maneira com que o filme exibe o preconceito inicial da comunidade científica frente a novas ideias como a Radiação Hawking. Também não deixa de ser emocionante o momento que Hawking decide escrever seu primeiro livro.

O drama também é competente em dar contorno à figura teoricamente multifacetada da esposa. E teoricamente é a palavra porque, apesar dos notáveis e admiráveis esforços de Felicity Jones, sua Jane Hawking permanece um mistério do começo ao final do filme. E seu relacionamento com o professor do coro da igreja local soa desculpável demais (mais um sintoma de biografias de gente viva).

Dito isto, não há como notar Eddie Redmayne se remexendo todo e demonstrando com uma passagem do tempo admirável todo o longo e doloroso processo pelo qual Hawking foi descobrindo que sua morte não viria tão cedo, e sua vida não continuaria tão fácil. Redmayne consegue manter a figura do físico teórico intacta, mas é incapaz de acrescentar algo além do gênio de cadeira de rodas e voz metálica.

Frustrante por nunca conseguir lançar asas para seus interessantíssimos personagens, A Teoria de Tudo, assim como a teoria que leva o nome, se assemelha à própria teoria sonhada por Hawking, Einstein e tantos outros: incompleta, ainda que supostamente elegante.

The Theory of Everything (United Kingdom, Japan, United States, 2014). Dirigido por James Marsh. Escrito por Anthony McCarten, Jane Hawking. Com Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior, Sophie Perry, Finlay Wright-Stephens, Harry Lloyd. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·