A Última Noite de Bóris Grushenko

Wanderley Caloni, 2020-12-09.

Ainda na fase comédia pastelão tem essa paródia dos romances russos que Woody Allen tanto evoca em seus diálogos existencialistas e filosóficos. Ele dirige um filme de guerra e traição como quem está montando um quadro para o final de noite no Zorra Total, mas é muito charmoso, ingênuo e sagaz. Ele não consegue evitar pensar a respeito dos temas que se propõe a falar, e por tabela não nos deixa, espectadores, parar de pensar também. Comédias de Allen são exaustivas, e as como essa são exaustivas apesar de medíocres.

A história envolve piadas com a Rússia Czarista, seu povo cheio de relações profundas entre a comunidade e uma relação fraternal ao mesmo tempo que fatal. Eles anseiam pela próxima guerra para defender a mãe Rússia, menos o personagem de Allen, que quando criança teve um encontro casual com a morte que comentou na época: "ainda nos veremos de novo". E é justamente isso o que o cineasta mais temeu durante toda sua vida.

Então deve ficar óbvio o medo que nosso herói sente ao saber que Napoleão invadiu o país e todos os homens saudáveis e ele devem marchar para o front. As mesmas piadas sobre sua inaptidão em usar uma baioneta se repetem enquanto ele sonha em se casar com sua amiga de infância.

Ela é Diane Keaton em seu primeiro filme com o diretor. Mais tarde eles casariam e fariam um filho dos mais belos chamado Annie Hall. Mas no momento Keaton é deslumbrante por ela mesma. Seu timing cômico supera suas falas. Seu olhar esguio, seus lindos olhos e bochechas a tornam uma luz inebriante em qualquer cena. Em suma: é uma delícia. Não me admira que foi escalada pelo diretor judeu (que assim como em Bananas faz piadas do lado dos cristãos mais uma vez).

A primeira metade do filme é inspirado, dinâmico. A segunda metade falha em não unir as suas pontas. É uma ideia pequena demais para um longa-metragem. Levemente melhor que Bananas, Allen está quase lá em seu equilíbrio cômico-trágico que o imortalizou. Ainda não foi dessa vez.

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