A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

A única forma honesta de escrever sobre "A Vida Extra-Ordinária de Tarso De Castro" é estando bêbado. E estar bêbado é apenas uma leve reverência ao jornalista, boêmio e mulherengo Tarso de Castro, que é homenageado à altura aqui pelos idealizadores Leo Garcia e Zeca Brito, que constrõem uma narrativa que essencialmente passeia pelo universo cotidiano do que era ser jornalista naquela época.

E quando se diz "naquela época" neste filme surge uma repentina melancolia, pois vivemos um tempo que há uma queda abrupta sobre o que significa ser jornalista. Antigamente existia a mente questionadora, a mente empreendedora e a mente irreverente, todas necessárias para a criação de uma notícia com opinião embasada na vida real. Hoje, ou há muito mais tempo, como ouvimos do próprio Tarso (ainda que em palavras mais simples), o jornalista inverteu os papéis de investigador da realidade para consumidor de conteúdo. Ele não vai mais ao bar, à esquina, questionar o que há. Ele apenas recebe o release da grande imprensa e arrisca de pouco a nada para continuar vivendo.

E o filme da dupla de diretores/roteiristas Leo Garcia e Zeca Brito não foge disso. Tendo como entrevistados uma classe de jornalistas velhos, quase (ou já) aposentados, ou artistas decadentes e cujas opiniões já não fazem mais sentido há muito tempo (olá, Caetano Veloso), o filme está sendo rodado eternamente em uma berlinda. Todos tentam descobrir quem é Tarso de Castro, mas o que todos dizem se resume nas obviedades de quem não tem nada a dizer: gênio, brilhante, com caráter, sem caráter, mulherengo, homossexual. E amava o jornalismo. Uma figura controversa sem dúvida. Mas graças a Deus controversa. Do contrário o filme seria de um marasmo ainda maior.

Porque uma coisa é colocar grandes pensadores trocando ideias em mesas de bares, restaurantes ou falando ao telefone. A didática do filme é clara: usar os costumes do falecido jornalista -- falar ao telefone, ir ao bar para conversar sobre as novidades -- nos entrevistados, como se ele ainda estivesse ouvindo do outro lado da linha. A dinâmica de um entrevistado falar ao telefone é usada tantas vezes que ela cria tensão o suficiente para que o filme continue sem soar mais do mesmo. Cada nova ligação parece importante. Até não ser mais.

Filho do diretor do jornal O Nacional, de Passo Fundo, onde nasceu e cresceu até a adolescência, já estava acostumado a ser uma figura imune onde quer que estivesse. Ele ir para o Rio construir sua própria carreira foi apenas um próximo passo. Ouvimos sua mãe contar pontas da história que juntam o início, o meio e o trágico fim de uma maneira exemplar. Ela é a pessoa mais sucinta e com mais informações relevantes no filme todo. Claro que os jornalistas entrevistados possuem mais informações sobre a carreira e o cotidiano de Castro, mas ou estão velhos demais para lembrar ("tem décadas que esqueci completamente depois de tanta cocaína", diz um entrevistado mais consciente) ou parecem estar nessa berlinda coletiva que se formou. E não há palavra alguma sobre o establishment hoje em dia.

Isso seria porque a internet derrubou toda a imprensa tradicional de cima a baixo? Um grande resumo do Brasil feito por Castro é o país de cabeça pra baixo. No começo vemos a tiragem de um jornal. No final vemos a mesma tiragem, mas de cabeça pra baixo. A mensagem não é muito clara, e apesar dela, ver os jornais sendo impressos hoje em dia só nos faz pensar em como o papel do cachorro anda tão caro ultimamente. Quem diria que o papel do cachorro sustentaria toda uma decadente indústria de consumidores de pré-release?

A edição de Garcia e Brito é sutil e eficaz. Ela pega os pouquíssimos elementos que pode utilizar (o "cabeça pra baixo", o uso de telefones de Castro, as conversas regadas a bebida) e tenta transpor para um documentário vívido, que soa imediatista (como um jornal deve ser) e que contém ainda imagens rápidas e fugazes das inúmeras capas dos inúmeros periódicos que Castro foi acumulando ao longo da vida. Ao lado das capas as mulheres com quem já transou constam no rol de entrevistadas, o que pelo menos não é um tabu neste filme. Estranhamente parece ser motivo de orgulho para as inúmeras agraciadas. Seria Castro o primeiro e único Don Juan do jornalismo brasileiro?

Sua derrocada com a bebida é vista de passagem, mas isso fica claro conforme seus amigos e colegas vão descrevendo aquela rotina desvairada do escritor, sempre dormindo pouco, bebendo muito e escrevendo como um louco (e há um pedaço de uma entrevista no Jô Soares que deixa mais claro seu drama). O Pasquim, em seu ápice, ultrapassou a Veja em tiragens. Um marco que merece ser lembrado. Mas o que continha no Pasquim que era tão genial? Existiam textos relevantes hoje em dia de Castro e sua turma? O que podemos aprender de tudo o que se passou desde a ditadura, a reabertura e a vinda dos blogueiros?

Não há muitas informações neste filme sobre a História em si, e aparentemente nenhum causo suficientemente marcante sobre Castro. A imagem que o filme nos deixa deste ícone no jornalismo brasileiro é que ele realmente era uma figura de pessoa e fez o que ninguém poderia ter feito naquela época. Agora nos resta saber o quê.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-05-16 00:00:00 +0000

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