A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell

Scarlett Johansson possui uma beleza natural que encanta tanto pela beleza quanto pelo natural. E nem ela consegue trazer algo de novo ao remake ocidental live-action de um dos trabalhos filosoficamente mais ambiciosos dos últimos tempos. E se nem ela consegue, não serão efeitos digitais nem diálogos em inglês que o farão.

A história é basicamente a mesma mais ou menos dois terços do tempo. A grande mudança está no terço final, onde o filme apela para se enlatar como um filme genérico de ação, dando um gosto estranho na boca de ter comprado gato por lebre.

A protagonista é Major (Johansson), um experimento feito em um futuro distante e distópico onde um cérebro humano é transplantado para um corpo inteiramente produzido por uma mega-corporação de biotecnologia que já domina o mercado com seus upgrades para humanos. Tida como "a singularidade" pela cientista-chefe do projeto, uma Juliette Binoche estranhamente no automático, Major é apenas um negócio da empresa que a criou, antropomorfizada por um vilão humano (um erro dar cara a corporações do mal) que usa as palavras arma, propriedade e contrato para se referir ao produto da manipulação humana em seu próprio corpo.

Através desta primeira espécime de um novo tipo de ser é montada uma equipe de operações militares comandada pelo único personagem que fala um idioma Oriental, a mando do governo, e mesmo que existam milhares de referências orientais à cidade onde tudo se passa e os habitantes das áreas mais pobres serem todos orientais, todos os personagens principais são mesmo é hollywoodianos, incluindo a própria Major. Porém, nenhum deles tem nada a oferecer além de cópias e referências à obra original. A reverência é tanta que não é possível se soltar.

Dirigido por Rupert Sanders ("visionário" do ótimo Branca de Neve e o Caçador), o roteiro escrito por três pessoas adapta muito mal o mangá de Shirow Masamune, e sem querer ofender o original, mas ao mesmo tempo sem conseguir oferecer nada além de uma tentativa patética de emular o mesmo universo protagonizado por atores de carne e osso.

A ideia por trás da ocidentalização da trama é interessante. O filme é uma pseudo-continuação do universo, mas falha miseravelmente quando estabelece os mesmos elementos do original, como um misterioso terrorista que ataca a corporação. Quando tenta algo novo ao revelar sobre o passado de Major e do terrorista acaba suavizando o impacto filosófico da trama, que mexe com as bases fundamentais de auto-identidade e consciência.

Este remake tem tudo para desapontar os fãs do mangá e anime originais em todos os aspectos, exceto sua estilização. Ambientado em um futuro que exagera a tecnologia atual para hologramas em todos os cantos e com uma mescla menos dark de Blade Runner, os tons coloridos da megalópole estabelece um interessante contraste com a parte menos privilegiada da cidade, em suas quase-favelas verticais com cor de terra e seus habitantes amontoados. Em ambos os mundos, porém, nota-se um tom insosso que não consegue trazer alma para um projeto que se torna ele próprio um Fantasma na Concha. Só que sem emoções.

Wanderley Caloni, 2017-08-25 00:00:00 +0000

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