Advantageous

Wanderley Caloni, 2015-09-20

Este filme possui um conceito interessante com pouco substrato. São pessoas interagindo com uma pintura futurista ao fundo. Quando tudo termina, não há conflito, mas a concretização do que já se esperava no começo.

Gwen é uma mãe solteira que tem que criar a filha Jules em uma época difícil. O ano não é muito claro, mas estamos pelo menos dois séculos à frente. A humanidade parece ter intensificado o que já vemos hoje: crianças que amadurecem cada vez mais cedo, terroristas e seus atos aleatórios de vingança e a privacidade não sendo mais um problema, já que ela simplesmente não existe, como as luzes azuis dos drones voando à noite e iluminando através das cortinas das casas demonstram.

Imaginado como um longo conto com símbolos enxutos e estéreis por toda a parte, as amigas de Jules são uma negra e uma loira, e daí já enxergamos a influência de sua diretora de São Francisco (logo politicamente correta) Jennifer Phang. Jules é asiática, como sua mãe. Gwen trabalha em marketing, em uma empresa que vende a troca de corpo de seres humanos em uma versão ainda em beta. Quando seu emprego é ameaçado, Gwen concorda com a única opção que lhe resta para tentar sustentar sua filha: ela mesmo se submeter ao experimento e virar a garota-propaganda da transferência de consciência.

Com um ritmo lento, pouca música, quadros pintados, atores inexpressivos em cenas excessivamente longas, o tempo parece não andar em Advantegous. Nem as pessoas. Presas às convenções da época, até os movimentos feministas se entregam ao lugar-comum já previsto séculos atrás; na verdade, já existente: o nosso tempo. E com crianças maduras que questionam sua própria existência enquanto sequer suas sobrancelhas franzem é difícil criar alguma empatia em torno desses seres robóticos.

Seriam eles robôs? Nada faria sentido no filme se o fosse, ou até faria, já que a consciência é banalizada em uma operação que visa uma melhor aparência para seus usuários. A propaganda menciona uma vida sem defeitos em que todos os sonhos seriam possíveis, mas o filme sequer possui uma definição clara de consciência que torna a busca de sonhos material de estudo nesta história. Na história ocorre um erro e agora a mãe de Gwen não é mais a mesma. Como eles sabem? De onde vem tanto conhecimento acerca do que é consciência que permita que o personagem de Christian Bale em O Grande Truque consiga descobrir se o que ele realiza todas as noites é um suicídio ou uma simples transferência de memórias?

Advantageous ignora detalhes demais para que tenhamos empatia pelo tema. Sua principal força motriz é garantir uma crítica vazia a um mundo que hoje é visto como desigual e cuja existência é diminuída. Consegue transformando um conceito até que interessante em um filme chato que se arrasta em cima de sua própria obviedade.

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