Algo Como a Felicidade

Quando a Maldade é Cúmplice das Boas Ações

Algo me incomoda nos heróis desse filme: é tudo tão fake. Certo, eles não podem evitar tomar o caminho do altruísmo e serem tão bonzinhos aos olhos da família e dos amigos. Porém, nós, seres humanos de carne e osso, sabemos existir motivos pelos quais as pessoas são bondosas. Traumas de infância, sentimentos de culpa, autoestima fragilizada. Nada disso consta no currículo dessas criaturas idealizadas.

Idealizadas por quem, e para quê? Nós já cansamos das trajetórias heróicas desprovidas de cinismo. Não apenas nos cansamos: não se compra mais essa ideia. Portanto, os roteiristas desse filme ganham alguma coisa em cima de personagens altruístas. A beleza do sacrifício? Talvez. A intimidade e cumplicidade com que o jogo de quem vai fazer de tudo para permanecer íntegro se joga com mais de um dado.

Mas esta é uma arapuca bem montada na ficção que se desmonta na vida real apenas tremendo um pouco o tabuleiro do jogo da vida. A indecisão de fulana em ir se encontrar com sicrano e ter uma vida digna no Novo Mundo já foi visto, mas nunca na época das imigrações em massa, quando a miséria e a guerra eram motivos o suficiente para qualquer um tentar a sorte do outro lado do oceano. O que mudou nos tempos atuais, onde ter uma vida de merda em um país do segundo mundo arruinado tanto pelo capitalismo explorador quando pelo corrupto comunismo de partido, faz valer a pena continuar convivendo com pobreza de espírito, loucura e maldades?

Tudo isso é fake. É um filme para alimentar nossas esperanças em um tipo de bondade não apenas ilusória, antes fosse assim, mas menos do que isso: indesejável. Repugnante. Ninguém deseja um mundo onde altruístas sejam levados a sério por serem altruístas. Sem motivos egoístas a humanidade colapsa.

Wanderley Caloni, 2021-12-18 22:20:39 -0300

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