Amarelo Manga

Wanderley Caloni, 2021-03-13

Nunca vi um filme inspirador que se passa no Recife. Tudo de ruim acontece naquela cidade. As pessoas não prestam e a miséria material e espiritual impera. É o inferno no Nordeste. Por isso o povo de artes adora fazer filmes sobre a cidade. Universitários adoram a pobreza glamurizada. É um mundo diferente para eles. Rola até uma estilizada na fotografia.

Aliás, esse filme de Cláudio Assis está lindamente fotografado pela autoridade no assunto Walter de Carvalho, o que cria um filme sobre a podridão humana em um filtro invejável, com tons quentes que remetem ao realismo ao mesmo tempo que as luzes do palco de um teatro. Não contente com isso os grãos usados na película são grossos, o que remete a uma realidade árida e ardida para os habitantes da capital do inferno.

O filme começa com um nu parcial da deliciosa Leona Cavalli (Contra Todos), a dona de um bar que todos os dias precisa se defender das mãos bobas e da conversinha pra boi dormir de seus clientes predominantemente homens. Mas ela faz questão de usar apenas um vestidinho sem nada por baixo. Vai entender. Eu só admiro.

Do outro lado da cidade temos Kika, a crente vivida pela igualmente deliciosa Dira Paes (O Casamento de Louise) e que não suporta a ideia de traição. Não preciso falar o que seu marido, apelidado de Canibal, anda aprontando nas vizinhanças.

E no centro da cidade temos o decadente Hotel Texas, o nome de um dos curtas premiados do diretor em festivais de filmes de arte de gente que gosta de pobre estilizado com poesia. Lá o dono é um português e o empregado com mais destaque é uma bicha, que será a origem de toda a desgraça, drama e transformação que irá acontecer na vida dessas pessoas.

Uma coletânea de momentos soberbamente dirigidos, montados e editados, Amarelo Manga nunca peca pelos seus detalhes técnicos. Sua equipe domina a arte cinematográfica. Seu elenco é afiado em protagonizar pontas onde capricha no sotaque e nas falas teatrais. Tudo isso cria uma antologia impecável, embora sem alma.

Falta conclusão nesse emaranhado de personagens e situações. E diferente de Pulp Fiction, que tem um tema e atmosfera para desenvolvê-lo, Amarelo Manga tem a virtude da narrativa sem saber muito bem o que quer desenvolver até seu final. Acaba não indo muitona fundo em nada. Vira uma curiosidade divertida e esquecível de estereótipos dançando ao sabor da edição e de uma trilha sonora característica, bem escolhida. Virtuosa.

Mas já vimos que os problemas do filme nunca são técnicos, mas do que fazer com tanto talento.

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