Amor à Flor da Pele

2019-08-24 · 2 · 402

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Wong Kar-Wai é um cineasta que não gosta de roteirizar seus filmes. Ele prefere ir apalpando e sentindo até onde pode ir a exploração de um tema. Por isso mesmo ele é exímio diretor de curtas, principalmente de TV. Curtas expressam bem sua opinião sobre Cinema: momentos que serão eternizados pelo audiovisual.

Por isso que Amor à Flor da Pele é um filme tão repetitivo. Ele mantém uma história acontecendo, mas prefere ficar apaixonado pelos momentos em câmera lenta, pela mesma música-tema tocando um milhão de vezes. A passagem de tempo é marcada através de infinitos vídeo-clipes de duas pessoas conectadas por uma traição que elas não participam e suas solitárias rotinas. Uma delas vai ao cinema sozinha. “Como foi o filme?". “Mais ou menos.". É assim que me sinto a respeito desse.

Eu poderia falar sobre a fotografia maltratada que retrata uma época pobre e poética de Hong Kong e outros cenários onde a história se passa, ou sobre a chuva, inerentemente cinematográfica, caindo bem na cabeça do protagonista quando ele menos precisa disso. Ou poderia falar das três músicas usadas neste filme à exaustão, que são belas, e uma delas praticamente comenta a história (e isso sem letra).

Porém, prefiro focar nessa eterna e implacável passagem do tempo depois que duas pessoas encaram o trauma de suas vidas, e como, paralisadas, não conseguem seguir adiante. É um segredo que compartilham por causa do destino, e acreditam que é o destino que está pedindo pela companhia um do outro, ainda que ao mesmo tempo eles decidam não cair no mesmo pecado de seus cônjuges.

Este é um filme que se constrói com sutilezas e escala um elenco que torna o ambiente real. Fora os astros Maggie Cheung e Tony Chiu-Wai, que conseguem construir seus personagens apenas com olhares e expressões, esta é uma Hong Kong dos anos 60 convincente, ainda que não consigamos enxergar um palmo diante de nosso nariz, exceto o restaurante de onde ela compra seu macarrão e a senhoria de ambos, sempre com animadas visitas e convites para comer.

Wong Kar-Wai é assim: um cineasta preocupado com detalhes e que os explora às custas da paciência do espectador. Se você gosta do tema e quer ver mais sobre ele, a mera passagem do tempo no filme paga seu ingresso. Se você gostaria de algo mais ágil, busque pelos curtas do diretor, e veja o trailer estendido deste filme.

In the Mood for Love (Hong Kong, China, 2000). Dirigido por Kar-Wai Wong. Escrito por Kar-Wai Wong. Com Maggie Cheung, Tony Chiu-Wai Leung, Ping Lam Siu, Tung Cho 'Joe' Cheung, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·