Anti-Spoilers e o Escudo Pró-Hype

2019-07-20 · 8 · 1640

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este texto não possui começo nem fim. Ele é uma mera continuação, assim como as da Marvel, que vai se perder no tempo e no espaço. Mas enquanto estamos aqui e enquanto você está disposto a ler sobre o ponto de vista de um velho: eu me lembro de uma época em que o lançamento de um blockbuster era um evento anual. Eu me lembro porque eu vivi essa época, então analiso a realidade atual sob a ótica de alguém que sentiu a mudança surgindo até um momento que o contraste ficou aparente demais para não ser notado.

Comecemos com o tradicional advérbio de velho: “antigamente”, quando nossos pais nos levavam para assistir filmes no cinema sem ou com pouca pipoca, quando no espaço inteiro de uma infância víamos meia-dúzia de filmes, lançamentos como De Volta para o Futuro 2 era O evento, ápice do ápice, para não ser notado e comentado.

Porém, diferente de hoje, esse evento não era antecedido por meses e meses de espera ansiosa. Por quê? Bom, em primeiro lugar porque nós nem sabíamos que esse evento existiria. Não havia internet; apenas jornais noticiando brevemente, e isso nas últimas semanas antes da estreia. Nos jornais impressos (você ainda lembra o que é isso?) as críticas surgiam um pouco antes do dia D, e apenas na edição de domingo. Havia, portanto, uma surpresa legítima para uma produção que gasta em média um ano entre ser idealizada e produzida, seguida por pelo menos alguns meses em cartaz até o próximo arrasa-quarteirões (curiosidade inútil: essa é a nossa aportuguesada expressão de blockbuster, que nos anos 90 virou também no Brasil o nome da novidade entre as locadoras de VHS; PS: não vou explicar o que é VHS: Google for it).

Naquela época os bons filmes também se destacavam pelo que eles eram: roteiros coerentes e completos, com começo, meio e fim. Ironicamente De Volta para o Futuro 2 não é uma história completa, mas uma continuação, que foi filmada junto de uma segunda continuação que finalizaria uma trilogia [1]. O exemplo de uma continuação bem-sucedida vem bem a calhar para eu explicar que o problema que estou analisando não é sobre continuações, que sempre existiram, mas sobre as serialização de filmes que não pediriam por continuações se não tivessem sido concebidos como capítulos de uma série em primeiro lugar. O exemplo mais marcante do momento são os famigerados filmes da Marvel [2], que nunca começam nem terminam e, por conta disso, são menos do que incompletos: são incoerentes.

Roteiros coerentes entregam para o espectador, mesmo que em uma continuação, o início de um conflito, seu desenvolvimento e sua resolução. Ao final da catarse cinematográfica íamos todos de volta para casa satisfeitos pela experiência e dispostos a ver de novo se tivéssemos gostado muito, o que geralmente era o que acontecia um ano depois, na TV, pois os filmes que eram assistidos no cinema eram escolhidos a dedo, baseados em boca-a-boca ou baseados na opinião de algum conhecido metido a intelectual que lia a coluna de Luis Carlos Merten no Estadão ou aquele outro cara da Folha. Roteiros incoerentes dividem nossa atenção entre diferentes histórias. Há o Homem-Aranha e seu conflito em crescer, mas há os interesses da Shield, há as consequências de Vingadores: O Ultimato, há os outros heróis que precisam ser engavetados para não interferir nesta história. Há muitos poréns que devem se encaixar, e nem todos eles conseguirão nos satisfazer.

Compare os dois extremos. De um lado um ou dois filmes por ano de sensação entregues sem muita expectativa mas muito resultado. A surpresa de haver um filme novo que gostaríamos de ver era o primeiro prazer que o filme proporcionaria, seguido talvez de comentários de alguém que já viu o filme, eventualmente com alguns pontos-chave e possivelmente até com o final, se a pessoa não achasse que isso iria estragar a experiência do ouvinte. E, finalmente, o prazer final de estar no escurinho no cinema testemunhando um dos momentos máximos de quem desejava a experiência pela experiência.

No outro extremo, cerca de duas dezenas de arrasa-quarteirões sendo lançados todo ano. Todos eles já possuem cronograma antes do início do projeto, mesmo que não se tenha ideia da história por trás, já que a história é a menor das preocupações dos grandes estúdios. Isso acontece porque são continuações, remakes, spin-offs e adaptações já adquiridas. Há um cálculo tão meticuloso neste produto que nos EUA sabe-se a data exata da estreia de todos esses filmes (no Brasil não: há poucas salas e é um caos mercadológico). Durante um ano ou dois acompanhamos entrevistas com os produtores, atores, diretores, qualquer um que queira falar um pouquinho que seja sobre o que virá e esteja autorizado. Nossa sede por novidade é alimentada antes mesmo da concepção do filme, ainda em seu estado larva, sendo artisticamente especulado, testes de atores, teorias de fãs.

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança” e adoraria testemunhar o surgimento de tantos filmes de super-heróis maravilhosamente produzidos pelos milagres da computação em tempo recorde em uma quantidade e velocidade próximas dos próprios gibis que os originaram. Porém, “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. No mundo atual do entretenimento infantil para adultos com dinheiro de sobra, os momentos mágicos que antes se limitavam a dois ou três por ano do qual elas irão se lembrar daqui a 10, 20 anos como eu me lembro se tornaram uma versão audiovisual da pipoca amanteigada que adoramos mastigar na mesma sala onde consumimos efeitos que nos anestesiam pela mais nova tecnologia 3D e som surround. E algumas poltronas até chacoalham. Mas infelizmente deixei as coisas de criança para trás.

Quando digo que esses espectadores ficam anestesiados eu digo de uma forma positiva, mas com um efeito negativo. É positivo sentir a pura emoção de uma luta, uma perseguição, explosões, movimentos frenéticos e nossos super-heróis vivendo momentos fantásticos em suas aventuras, mas é negativo quando a única coisa que os filmes hoje em dia têm a oferecer é basicamente isso empacotado em uma trama que pode ser resumida em uma pequena discussão entre os antagonistas, um mal-entendido que seja, que é resolvido em meio às explosões, fogo e fumaça como se não fosse nada demais. Não me parece mais aquele momento memorável em que Marty McFly e Emmett Brown decidem que precisam voltar a 1955 e resgatar o almanaque de ambas as versões dos Biffs, fazendo com que McFly entre novamente na festa de formatura de seus pais e vendo sua primeira versão que viajou no tempo arrasando na guitarra.

E se De Volta Para o Futuro 2 tivesse estreado esse ano, nesse momento você me acusaria de soltar um belo de um spoiler, estragando completamente a surpresa deste filme, quando ironicamente o motivo desse filme de Robert Zemeckis ser tão icônico ainda hoje é que mesmo sabendo de toda sua história de cabo a rabo assisti-lo novamente gera sensações igualmente positivas, embora não as mesmas, pois já sabemos o que acontece no filme. O que permanece é a estrutura do seu roteiro traduzida em uma direção impecável, que nos faz olhar a viagem no tempo de diversos ângulos e quando menos nos damos conta estamos descobrindo algo que não tínhamos visto nas 20 vezes anteriores que assistimos ao filme.

O que aconteceria se você assistisse por 20 vezes, por exemplo, Homem Aranha: Longe De Casa, lançamento deste mês? Provavelmente lá pela quinta vez você saberia a história de cabo a rabo, talvez até os diálogos, e no lugar de novas sensações revendo as cenas o filme entregaria um vazio existencial. Isso porque não há beleza inerente na estrutura de seu roteiro, que segue fórmulas já inventadas há décadas pela TV para nos manter interessados em uma história que é passageira e que apenas nos transporta de uma cena de ação para a próxima.

O que mantém o interesse nesses inúmeros filmes que são lançados todo ano é justamente as dezenas de trailers, teasers, entrevistas e teorias sobre como será o filme que ainda não foi visto. Há tantas possibilidades já pensadas e repensadas que surge um paradoxo: os que mais acompanham as expectativas da produção são os que mais se revoltam quando alguém lhes diz algo que não foi ainda citado em todo material de divulgação disponibilizado antes da estreia. Você pode dizer tudo o que foi dito pela imprensa para um amigo que se comporta da mesma maneira em relação aos próximos filmes, mas, por favor, não revele aquela reviravolta mortal, ainda que ela seja boba, previsível e completamente esquecida antes do final dos créditos. O que aconteceu com a indústria para produzir filmes em que o prazer racional de assisti-los é tão escasso que a experiência pela experiência acabou se tornando o que menos importa no final das contas? Como cereja do bolo, o clímax da história é visto tão de passagem que os espectadores ainda aguardam por uma cena boba após os créditos, como uma forma de prêmio de consolação por vir ao cinema captar aqueel último fiapo de mistério que restava sobre o filme.

Para uma geração que consome todos seus filmes antes de realmente vê-lo, o spoiler é uma arma letal. Ele queima esse último fiapo de mistério antes da experiência cinematográfica, sem o qual o filme perde completamente seu valor de mercado, um valor que já não era muita coisa, pois daqui a algumas semanas já é lançado novo arrasa-quarteirões, que hoje em dia está mais para chuta o portão do vizinho. É uma regra de ouro entre o novo público que os dados de uma estreia da semana fiquem em sigilo. Nem que seja por alguns meses após a estreia. Até porque a próxima estreia irá revelar inevitavelmente o desenrolar da história. E é claro que será uma continuação.

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