Arizona Nunca Mais

2018-02-06 · 3 · 581

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

É possível desde o começo da carreira dos irmãos Coen captar essa sagacidade em tornar as coisas surreais. Nunca é o caçador de recompensas simplesmente, mas o caçador com um par de calçados de bebê pendurado e uma calibre 12 que ele manuseia com uma mão só. Nunca são os fugitivos do presídio, mas os fugitivos que possuem uma visão distorcida do mundo em que a natureza de um bandido deve ser seguida para serem alguém na vida. E, por fim, nunca é um romance entre um ladrão de galinhas – ops, vendinhas de conveniência – e uma policial. Este é um romance com complicações que nos revela o quanto somos crianças cuidando de crianças.

A comédia que os Coen nos apresentam aqui, assinando direção e roteiro, é ligeiramente além do razoável, e brinca com alguns acontecimentos dignos de um pastelão. Porém, ao mesmo tempo, há uma importante mensagem aqui. Ou pelo menos é isso que o filme parece querer dizer.

A história é de um casal incidental de um ex-presidiário que é preso várias vezes pela polícia, mas como nunca usa armas de fogo ele é solto em pouco tempo. Ele vê a menina que tira as fotos da polícia todas essas vezes, um romance se desenrola, eles casam. E ela é estéril. Porém, no mesmo estado é divulgada a notícia que o famoso vendedor de móveis naturais Nathan Arizona (Trey Wilson) teve quíntuplos! Ora, como é injusto que alguns tenham tanto e outros tão pouco, não? Aqui vai uma alegoria ridícula sobre igualitarismo que deveria ser usado seriamente para conversar com algumas pessoas.

Então o casal semi-delinquente resolve roubar uma das crianças. São todos meninos, e quase idênticos. Eles acham que capturaram Nathan Jr., e o pai da criança também acha (mas não tem certeza). O que se segue é uma comédia de erros onde as coisas que podem dar errado vão simplesmente dando, sem ao menos percebermos. A história cativa e não nos interessa muito saber seu desenrolar, embora saibamos intuitivamente que esse sequestro deverá ter um fim.

Nicolas Cage faz H.I. McDunnough, um rapaz pacato que se mete com a justiça por achar irresistível assaltar pequenas lojas de conveniência pela estrada. Sem portar armas de fogo, logo ele é solto. Ele é uma figura que lembra incompetência com um pingo de empatia e outro pingo de burrice. Ou será apenas um rapaz muito zen? Não sei. O que sei é que comparado com a dupla de bandidos interpretados por Randall ‘Tex’ Cobb e John Goodman McDunnough parece um rapaz decente. E de fato Nicolas Cage, por pior que sejam os filmes que ele participa, não pode ser acusado de mau rapaz.

Já Holly Hunter como a esposa baixinha e simpática e cheia de sotaque Ed não faz feio. Ela quase consegue ser a versão jovem de Frances McDormand, menos a postura em tela. Ela é um tanto esquecível, mas nas partes boas nos lembramos que ela estava lá. Ela fica apagada principalmente, eu acho, pelo bigode de Nicolas Cage.

Este é um filme que une emoção e surreal em torno de uma quase fábula sobre o valor das coisas e sobre o bem e o mal, mas em uma versão mais… Arizona. Os Coen fazem seu segundo longa (o primeiro foi Gosto de Sangue), e vê-se que estão afiando a navalha para Fargo. Chega a ser emocionante apenas pelo fato de sabermos que esta é a trilha da evolução do par de cineastas mais competentes em atividade.

Raising Arizona (United States, 1987). Dirigido por Joel Coen, Ethan Coen. Escrito por Ethan Coen, Joel Coen. Com Nicolas Cage, Holly Hunter, Trey Wilson, John Goodman, William Forsythe, Sam McMurray. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·