Assédio

2019-09-08 · 5 · 876

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este filme é uma aula de como fazer Cinema, e se aproveita de uma história que facilita isso. Escrito pelo diretor Bernardo Bertolucci com a ajuda para as partes africanas pela roteirista Clare Peploe, Assédio é uma janela que se abre para um tema com todas as forças possíveis de serem exploradas.

A história é conduzida de maneira enérgica, dinâmica e apressada por Bertolucci. Há um golpe de Estado em um país africano, que vira colônia de algum país branco em alguma época do século 20. Os detalhes não importam. O marido de Shandurai, professor em uma escola, vira preso político, e ela foge para a Itália, estudando medicina e pagando suas contas trabalhando para Jason Kinsky, um pianista medíocre e tímido que fica fascinado com a beleza de sua empregada.

A comunicação dessas duas pessoas de mundos distintos é feita através da música. Enquanto Shandurai veio do mundo alegre e dançante que o cantor africano John C. Ojwang nos apresenta na primeira cena do filme (ele volta depois, e eu gostaria que mais vezes), Mr. Kinsky é quase o clichê branco europeu fã de música clássica, notas meticulosas onde a simetria é parte de sua beleza. Enquanto a casa de Kinsky representa um mundo ordenado, onde a empregada dorme no térreo e seu armário é um elevador que conecta os dois andares (mundos), Shandurai veio de um mundo de guerra, de crianças mutiladas, de caos e poeira (pobreza) nas ruas. O filme atinge poesia nas tomadas africanas utilizando sol e canção.

Para ressaltar ainda mais a diferença desses mundos, enxergamos essa realidade pelo ponto de vista exclusivo de Shandurai, a foragida talvez viúva que segue trabalhando e estudando enquanto aguarda por dias melhores. Ela sofre assédio, mas a timidez de seu patrão, que se limita a lhe dar presentes pelo elevador que conecta os andares e a observar constantemente, possibilita que Shandurai siga sem muito receio. Porém, o ponto de virada mais importante da história ocorre quando Kinsky confessa todo seu amor pela africana, falando que faria qualquer coisa por ela. A resposta de Shandurai, “liberte meu marido, então”, cumpre duas funções: mantém o pianista distante, por respeito, e cria um movimento oculto de Shandurai durante o resto da história, um movimento que ela apenas pode imaginar e observar conforme a casa de Mr. Kinsky se transforma.

Cada cena em “Assédio” é vital para a narrativa, que segue sem qualquer diálogo expositivo. Isto é Cinema feito com a movimentação de uma câmera na mão, que curiosa, avança para seus personagens, entrando e saindo dos recintos. Essa lógica visual é empregada durante todo o filme e Bertolucci se transforma em um mestre em usá-la. Importante lembrar que o diretor não usa a mesma lógica em seus outros trabalhos. Ele é competente em escolher o melhor formato para contar cada história de acordo com o que ela oferece, e a orientação espacial neste filme sozinha é algo a se apreciar várias vezes.

Se não há diálogos, a solução adotada é a música. E note como Bertolucci demonstra como Kinsky se inspira em Shandurai para compor seu trabalho, a observando passar o aspirador, e como a música clássica recebe um pouco da energia africana, ainda que muito sutil. Sutileza é a palavra-chave que coordena como esses dois mundos tão diferentes vão aos poucos se aproximando, de maneira indireta, quase imperceptível. Se trata de um trabalho delicado mostrado com dinamismo, e por isso a passagem do tempo é tão implacável ao mesmo tempo que cada passo apenas move um fio de cabelo na história.

Shandurai é interpretada por Thandie Newton, uma atriz já consagrada no cinema, mas que hoje seria mais conhecida pelo seu excepcional trabalho na série Westworld como a robô cafetina Maeve. Newton aqui exibe seus mesmos olhos esbugalhados a serviço de uma jovem distante da sua zona de conforto, mas que ao mesmo tempo que parece estar em luto tentando seguir sua vida solo demonstra uma certa curiosidade pueril em explorar seu novo mundo através dos olhares de Mr. Kinsky. Não é um trabalho sutil, mas funciona por causa da abordagem mais bruta da narrativa.

Já David Thewlis como Mr. Kinsky mal aparece nas lentes de Bertolucci, ressaltando sua reclusão e timidez, e quando aparece se encontra ou olhando para Shandurai ou para o chão. Sua forma de mexer as mãos, demonstrando uma mistura entre timidez e homossexualidade, representam com certa eficiência sua mente imatura, onde seus únicos amigos são os amigos de uma garota para quem dá aulas de piano. Jason Kinsky aparentemente não se incomoda em viver como Mr. Kinsky, o que nos revela mais um traço europeu, do viver sem vida, das imagens estáticas de uma casa que só perde a poeira quando chacoalhada pela empregada africana.

Assédio é um filme que vai muito além de seu tema original ironicamente por fazer de tudo para explorar seu tema original, e com isso revela a competência de seus realizadores, em especial do diretor Bernardo Bertolucci, em conseguir unir dois mundos e ressaltar como se parece estar vivendo isolada em situação de vulnerabilidade e ainda assim ousar sonhar. É um filme sincero, sutil pela falta de diálogos, mas explícito pela sua música, seu movimento de câmera, o seu Cinema que respira do começo ao fim.

Besieged (Italy, United Kingdom, 1998). Dirigido por Bernardo Bertolucci. Escrito por Clare Peploe, Bernardo Bertolucci, James Lasdun. Com Thandie Newton, David Thewlis, Claudio Santamaria, John C. Ojwang, Massimo De Rossi, Cyril Nri. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·