Assunto de Família

2019-09-09 · 4 · 842

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

O que é uma família? O que transforma os laços de sangue em laços afetivos? Apenas o costume de ter essas pessoas junto de você? Para responder podemos apelar para a herança e as semelhanças genéticas, e não me refiro apenas à aparência, mas comportamento. Para alguns a resposta é óbvia: todos vivem na mesma casa. E se fizermos um teste de regressao concluiremos que não temos como escolher com quem passaremos os primeiros anos de nossa vida. Essa sensação gera um pouco de impotência, se for pensar.

Hirokazu Koreeda, o diretor naturalista de Afterlife, e que fala sobre famílias não-tradicionais em Depois da Tempestade, faz agora um filme que parte da premissa de pessoas que precisam estar o tempo todo ganhando a vida para sobreviver, às vezes em trabalhos de meio-período, outras em pequenos roubos em mercadinhos de bairro. Ninguém Pode Saber, outro filme de Koreeda, também explora essa forma não-convencional de viver, onde uma mãe tentava acobertar seus vários filhos vivendo sozinhos enquanto ela saía para trabalhar. Mas em Assunto de Família há uma diferença: os membros dessa família foram se unindo pelas circunstâncias, e talvez por isso mesmo se mantiveram juntos de verdade.

“Shoplifters” (o título internacional em inglês) não é apenas sobre como viver sendo pobre e sem instrução, mas principalmente em como se manter humano com a vida que se leva, ou talvez justamente por causa dela. Há alguma discussão moral envolvida nos roubos, mas o filme foca mais na observação dessas pessoas a ponto de nos identificarmos com a força do hábito em termos alguém com quem nos preocupar, e dividir as refeições e os momentos juntos.

Para isso o filme possui uma condução sem pressa e curiosa. Fogos de artifício são lançados à noite, mas a câmera do diretor prefere ficar observando aquelas pessoas olhando para o céu. O que elas fazem vai se tornando cada vez menos importante de como elas fazem: juntas. E para isso o enquadramento do diretor está constantemente as colocando no mesmo lugar, ainda que separadas. Pode ser a “avó” no fundo, os “pais” no centro e as crianças brincando de lado, mas juntos, sem necessidade de cortes.

Este também é um filme que explora a construção das personalidade de uma criança. Shota (Jyo Kairi, de Erased) não sabe muito sobre seus pais verdadeiros, e vai aprendendo aos poucos como é viver com um possível novo pai, uma nova mãe e até uma irmãzinha, a doce Lin. Se há um arco para o espectador se sentir mais confortáel, este reside na personalidade de Shota, que resume a busca por adequação de toda a família improvisada. E isso sem falar uma palavra.

A avó, como deve ser, afinal, este é um filme japonês, é o pilar da casa. E a presença de tela da atriz veterana Kirin Kiri, que já havia trabalhado com o diretor em Depois da Tempestade, faz a vida ter significado em sua presença. Por isso, mesmo vivendo em família, surge a estranheza ao testemunharmos que em termos práticos são os negócios que os unem. Quando o “pai” torce o pé o primeiro pensamento é se haverá compensação financeira pelo tempo de repouso. A “avó” compra a companhia de seus filhos e netos mantendo-os com a pensão que ganha do falecido marido. E assim por diante. Mas parece haver algo mais que acontece: a humanidade que brota das interações humanas.

Ao despir as relações de sangue, Koreeda nos faz enxergar não apenas que podem haver interesses por trás da convivência de membros de uma família, mas há também, por outro lado, algo que nos torna humanos. E é através das diferenças dessas pessoas, e não das semelhanças, que se constrói um relacionamento. Dessa forma, o pai impotente se preocupa com a saúde sexual do seu filho, o que acaba por ajudar o relacionamento de ambos. A carência afetiva que a filha mais velha testemunha em seus clientes, jovens que pagam por uma exibição erótica (cronometrada e cobrada) e um eventual carinho, refletem em sua necessidade de ter a atenção de uma avó. E a esterilidade da mãe a faz se tornar a melhor companhia possível para Lin: uma que não a está julgando por não ser como ela. O símbolo mais tocante disso no filme é quando vemos as duas comparando seus cabelos de tons diferentes.

Este não é um filme com uma trama que irá se desenvolver em reviravoltas e irá evoluir para uma situação mais favorável dos personagens. Koreeda não está interessado em finais felizes, mas em nos fazer pensar nos possíveis finais das vidas das pessoas reais hoje em dia. Pode ser uma criança que conseguiu encontrar finalmente uma figura paternal em que se espelhar, ou uma menina largada pelos pais em casa e que não recebe qualquer tipo de atenção positiva. Há mais perguntas do que respostas em Assunto de Família. E sua virtude reside não em tentar respondê-las, mas em escolher as perguntas certas a serem exploradas. E por fim, nos faz repensar uma delas a todo momento: o que é uma família?

Shoplifters (Japan, 2018). Dirigido por Hirokazu Koreeda. Escrito por Hirokazu Koreeda. Com Lily Franky, Sakura Andô, Kirin Kiki, Mayu Matsuoka, Jyo Kairi, Miyu Sasaki. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·