Bench Cinema

É fácil fazer filmes que homenageiam o Cinema de uma forma ou outra. O cinéfilo e o crítico caem de pé. Porém, difícil é fazer algo com qualidade, que queira dizer algo a mais, e esteja se aproveitando da metalinguagem para isso. E esse felizmente é o caso de Bench Cinema, um filme que observa a realidade do Irã e sua censura e, nos mesmos moldes de Cinema Paradiso (outro filme que explora metalinguagem), constrói uma narrativa doce, mas dramática, sobre personagens que vivem de e para a sétima arte.

A história gira em torno de uma espécie de ator improvisado que sabe as falas de filmes clássicos de cor e salteado, e faz toda a performance dos atores principais ao vivo para o público, diálogo a diálogo. Tendo sido dono de uma locadora, seu negócio é fechado quando o governo proíbe fitas "subversivas", no que vira uma imensa pilha de fogo, assim como quando livros são queimados pelo totalitarismo. O ator é preso, e lá conhece um dublador desses filmes, que lhe apresenta um presente. Durante a prisão, nós somos presenteados com a melhor cena do filme, uma réplica do diálogo de Um Estranho no Ninho feito de uma maneira imaginativa e que recria a mesma situação sob outro contexto, com o reflexo de uma TV desligada. Essa cena é poderosa e já capta o espectador de imediato.

Uma vez liberto, o ator descobre seu tesouro. E quando menos imaginamos, ele está adentrando nos clichês, diálogos e situações que ele mesmo recria em seu trabalho. Aos poucos vai formando uma equipe e ganha um local cativo para atuar, onde nesse microcosmos até um chefe de gangue, como há em diversos filmes de gangues, começa a censurá-lo. A vida imita a arte que imita a vida.

A surpresa do filme é um violinista que conhece de cor praticamente qualquer trilha sonora, apesar de sempre tocá-las com um "sotaque" de Oriente Médio. Ele come uma monstruosidade, e é o alívio cômico da trupe. Note como aos poucos o filme explica, não de maneira didática, mas orgânica, como funciona a criação dos filmes. A trilha sonora está na figura desse violinista, e ele está sempre presente no palco, exceto quando o filme é mudo (algo que é necessário quando o ator prejudica sua garganta de tanto atuar). Eles acham também alguém para os "efeitos visuais", e uma coadjuvante mulher também entra em cena, também de maneira orgânica, para gerar tensão e assumir alguns papéis importantes, onde homem não tem vez.

Bench Cinema é um filme na maioria do tempo doce, mas sempre tem uma mensagem por trás, mesmo que em alguns momentos essa mensagem fique confusa. Seu terceiro ato vai se tornando aos poucos o mais poderoso, pois a narrativa adentra em um pesadelo (ou sonho) Kaufmaniano, onde a realidade também é pintada como nos filmes. E sua última sequência, bela e arrebatadora, é o que causou os aplausos do público na sessão onde eu estava. Aplausos merecidos por quem reverencia a arte de contar histórias.

Wanderley Caloni, 2016-10-26 00:00:00 +0000

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