Bicho de Sete Cabeças

2019-05-11 · 3 · 433

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Para comemorar o dia anti-maniconial (que nominho desgraçado) nada como assistir Bicho de Sete Cabeças, que é baseado em um caso real de um jovem internado em um sanatório porque dava uns tapinhas na pantera.

O filme tem cenas de sobra demonstrando o caos da sociedade brasileira conservadora da época. Othon Bastos faz o papel do pai gente direita que quer colocar o filho no eixo. O filho, interpretado por Rodrigo Santoro, é um vida boa, jovenzinho que está aí só curtindo com os amigos. E a mãe, Cássia Kis, é essa submissa padrão que sofre em silêncio.

A falta de comunicação em família é o estopim para uma internação despropositada, junto com a ignorância sobre as drogas, ou pior, a confiança cega no governo para ditar quais as substâncias recreativas que podem ser ingeridas, como calmantes, nicotina e o álcool do dia-a-dia. O sanatório é uma parceria pública e quanto mais loucos para eles melhor. Logo o exame do “doutor” é só ver se o paciente está com o coração batendo.

Este é um filme com atuações ímpares, tanto no casting principal quanto no dos loucos. Mas vendo o making of fica claro de quem é a competência na história. Dirigida por Laís Bodanzky, ela acompanha cada cena com os atores em seus personagens. Ela é a diretora ao mesmo tempo que a câmera. Ela determina o tom de cada cena e seu enquadramento com precisão cirúrgica. Ela teve depois em seu currículo filmes acima da média nacional, como As Melhores Coisas do Mundo e Chega de Saudade.

Não à toa o resultado é um filme tenso que nos dá uma boa noção das consequências nefastas de internar alguém 100% saudável em uma “escola de malucos” como essa. A montagem e a trilha sonora fazem o resto, com seleções de batidas rock pauleira. A fotografia ajuda também, sempre nublada e azulada. A tristeza de um ser humano é não ser compreendido.

A relação entre pai e filho pode ter falhas de comunicação, mas o filme não vilaniza a geração passada, que tem seus motivos de preocupação. A história segue uma pegada biográfica, então alguns detalhes como um romance casual ficam soltos, apenas ilustrando a perda da vida que este jovem poderia ter.

Bicho de Sete Cabeças é uma viagem tão eficiente quanto Um Estranho no Ninho no sentido de olharmos para a natureza da definição do nosso normal. E além disso é um ótimo exemplo de como a impressão de que nossa sociedade está sob ordem e controle é um mero joguete publicitário de quinta categoria. Como as pessoas acreditam ainda nisso?

Brainstorm (Brazil, 2000). Dirigido por Laís Bodanzky. Escrito por Luiz Bolognesi, Austregésilo Carrano. Com Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kis, Dani Nefussi, Jairo Mattos, Altair Lima. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·