Black Mirror S05 E02 Smithereens

2019-06-14 · 4 · 850

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Eu sei, eu também gostava da versão futurista do Black Mirror, e acredito que eles continuarão a produzir episódios sobre o daqui a pouco tecnológico que nós tanto anseiamos como tememos. Porém, de vez em quando é de muito bom tom lembrar que coisas horríveis podem acontecer com a tecnologia que já temos hoje, nos alertando sobre o que preferimos ignorar: não são robôs dominando o mundo o grande medo de nossa evolução, mas humanos se comportando como robôs.

E nesse sentido o segundo episódio dessa temporada faz um apanhado de detalhes do nosso mundo atual que nos deveria deixar preocupados. A começar pela dopamina. Essa droga auto-injetável que desejamos mais e mais de maneira irracional está sob o controle de grandes corporações que visam apenas o lucro, usando seres humanos domesticados clicando em telas de celular à procura da recompensa química de nosso organismo. É a prisão mais perfeita já inventada: a que aprisiona sua mente e que você ainda por cima gosta.

Mas para chegarmos nessa fatídica, trágica conclusão, o curta explora outras questões, como a tecnologia dos apps de transporte, a privacidade, o luto digital pelos entes queridos e como a informação que temos acesso desencadeiam ações no mundo real, muito embora possa se tratar apenas de uma mentira. Todos esses detalhes são as pequenas peças que dão título a este episódio, Smithereens (“pequenos pedaços” em inglês).

A série retorna ao ambiente britânico muito tempo depois, nos fazendo lembrar por algum motivo do clima cinzento de seu debut, The National Anthem, que também falava sobre a manipulação das massas através das iscas mais primitivas. O centro emocional dessa história é Chris (Andrew Scott, o Moriarty da série Sherlock), que trabalha como motorista desses apps pegando seus passageiros sempre a partir do mesmo local: o prédio da Smithereens, uma empresa multibilionária responsável pela rede social mais popular do planeta.

O bom do roteiro de Charlie Brooker, que é o criador da série, é que apesar deste ser um episódio para TV, que precisa entregar detalhes além do necessário para espectadores distraídos em suas salas de estar, a experiência não é estragada para os cinéfilos mais atentos. Sabemos que há algo de errado com essa rotina de Chris, mas a história nunca nos entrega exatamente o quê até que todas as pontas estejam prontas para serem amarradas. Dessa forma, a origem de um automóvel, a existência de uma arma e o histórico de um usuário da Smithereens são meras pistas circunstanciais que aumentam a tensão em vez de diminuí-la. Ficamos mais atentos ao desenrolar da história com mais detalhes, mas isso é porque Brooker nos entrega migalhas meticulosamente colocadas na trilha que nos leva ao grand finale.

E esta é uma história que não nos força a pensar em todas as questões levantadas, como o vício pelas redes sociais, como estamos cada vez mais vidrados no mundo virtual nos esquecendo dos entes queridos em nossa volta, ou como estamos tão alheios às facilidades de nossos tempos que nunca imaginamos quando e como algo pode dar errado. Essa falsa sensação de segurança trazida pelo conforto tecnológico será massacrada aos poucos neste episódio, nos fazendo pensar da maneira mais enfática: através de nossos próprios hábitos.

O segundo momento mais triste do curta (sendo superado apenas pelo desfecho) é quando encontramos essa mulher cuja filha se suicidou. Ela não sabe o motivo, nem nunca saberá. Ela virou um fantasma que passará o resto de sua vida alimentando a falsa sensação de que um dia conhecerá melhor a filha que um dia estava viva. Para isso ela tenta todos os dias adivinhar a senha de uma rede social que ela utilizava com os amigos, na esperança de encontrar no mural qualquer coisa que aumente o contato com aquele ser que não existe mais. A tragédia humana toma contornos nefastos no nosso mundo interconectado, e Charlie Brooker acerta em cheio nas nossas feridas sabendo como unir o real com o virtual em uma dança mórbida e desesperançosa.

É nesse ritmo niilista que o episódio caminha, apresentando novos personagens na trama, como o dono da Smithereens, em uma atitude pé no chão desde universo contemporâneo que torna a experiência mais angustiante do que se o foco fosse na mobilização de várias pessoas neste grande evento que cerca a história e mobiliza continentes. Observe como tudo o que acontece em “Smithereens” poderia ter acontecido na vida real, e por mais cético ou cínico que você seja podem existir pessoas bem intencionadas inseridas no sistema, mas o que nos faz perder a fé não são as pessoas, mas o sistema ganhando livre arbítrio sobre como irá torturar nossas mentes.

Este não é um episódio impecável como USS Calister, mas diferente da alegoria de Star Trek, Smithereens está recheado de boas ideias e poucas conclusões, o que nos dá a esperança da série de vez em quando nos deixar com este gostinho de que o mundo não é tão simples quanto um programa de TV, e de que se queremos solucionar os problemas tecnológicos do mundo amanhã precisamos começar a pensar em como ele está nos afetando hoje.

Smithereens (United Kingdom, 2019). Dirigido por James Hawes. Escrito por Charlie Brooker. Com Andrew Scott, Damson Idris, Topher Grace, Monica Dolan, Amanda Drew, Daniel Ings. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · series · Twitter ·