Black Mirror S05 E03 Rachel Jack and Ashley Too

2019-06-15 · 3 · 578

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

O último episódio dessa temporada de Black Mirror faz aquela empoderada básica, de cartilha, pra empolgar o público feminino, e no meio de grandes ideias desperdiça todas em um final que lembra qualquer outra série de suspense e ação menos a própria Black Mirror, essa série britânica que ficou conhecida por nos fazer pensar e não possuir finais fáceis.

Ela emprega uma garota de quinze anos, Rachel (a competente Angourie Rice, de Dois Caras Legais), órfã de mãe e fascinada pela cantora pop Ashley O (Miley Cyrus) que, nenhuma surpresa, é um produto de marketing exposto em uma vitrine composta de shows e entrevistas para a mídia (qualquer relação com Miley Cyrus e sua persona Hannah Montana não é uma coincidência). A responsável pelo sucesso de Ashley é sua tia e empresária, que tomou conta de sua sobrinha desde pequena ao se tornar órfã e desenvolver complexo de culpa pela morte dos pais.

Esse passado traumático de Ashley e a morte da mãe de Rachel criam os ambientes que se conversam à distância, e essa tem sido a maior virtude da série: nos mostrar como vivendo em diferentes classes sociais e status não cria diferenças em nossa humanidade. É através da vida das duas jovens que a história se desenvolve melhor, pois observa como a tristeza de ambas se reflete, ou tenta se refletir, na vida real, em uma através das músicas que cria, e em outra é absorvida pelas frases fáceis de “você pode tudo” da figura de Ashley O.

Essa história também tem a participação de Ashley Too, um pequeno robô que carrega todas as conexões cerebrais da Ashley original. O criador da série e roteirista deste episódio, Charlie Brooker, parece se divertir imensamente com todos os trocadilhos envolvendo o nome da boneca inteligente, a começar pelo título (“Ashley Too” pode querer dizer que ela está na aventura também, em inglês) além da óbvia menção a esta ser a versão 2 da pop star (mais uma vez, “two”, dois, em inglês, se pronuncia idêntico a “too”).

Toda a diversão com o nome parece ter feito Brooker ter perdido tempo para explorar melhor o potencial feminista de outra ideia do episódio, sobre as potencialidades da mulher estarem limitadas por um sistema – na série, um sistema tecnológico, na vida real, o sistema social – e como o discurso fácil do empoderamento se transforma em apenas mais uma forma de vender produtos para a atordoada massa de meninas que não sabem o seu lugar na sociedade (como todo adolescente, diga-se de passagem).

Além disso, um dos problemas do episódio se encontra também na participação de Miley Cyrus em sua versão humana, que é incapaz de segurar o drama da pop star teen e sua depressão sendo gerenciada através de remédios. Pela falta de capacidade da atriz os momentos em que a vemos desempenhando o papel ela está sempre de costas para a câmera, no escuro, ao fundo. É uma maneira eficiente que a diretora Anne Sewitsky encontrou para mostrar essa personagem multifacetada, mas faltou atuação aí para que os momentos de confronto possuíssem o mesmo peso. Cyrus se sai muitíssimo melhor atuando com sua voz no terceiro ato, quando a simpática robozinha coloca suas adoráveis asinhas de fora.

Porém, o terceiro ato peca por encontrar os caminhos fáceis de qualquer trama enlatada, exagerando nos antagonistas, transformando-os em caricaturas fáceis de serem odiadas e inserindo os heróis em uma missão de corrida contra o tempo extremamente batida e esquecível.

Rachel, Jack and Ashley Too (United Kingdom, 2019). Dirigido por Anne Sewitsky. Escrito por Charlie Brooker. Com Miley Cyrus, Angourie Rice, Madison Davenport, Susan Pourfar, Marc Menchaca, Jerah Milligan. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · series · Twitter ·