Blade Runner 2049

Namorador de Rei Chiquita

É indiscutível o talento do diretor Denis Villeneuve em conduzir uma experiência cinematográfica. Fã incondicional de vários de seus trabalhos, como Incêndios, O Homem Duplicado e A Chegada, não escondo minha total decepção dele aceitar orquestrar um filme caça-níqueis como esse, que expande uma história já terminada décadas atrás revertendo a sensação do espectador de ter que pensar a respeito nos últimos momentos de um dos últimos grandes neo-noir sci-fi.

E quem diria que um ator do calibre de Ryan Gosling conseguiria descer tanto ao nível de namorador de rei chiquitas. Ele estava muito melhor dez anos atrás como Lars Lindstrom em A Garota Ideal, quando seu personagem conhece Bianca, uma sex doll que ele encomendou de um site adulto. Sim, uma boneca. Mas, diferente de seu par romântico em Blade Runner, a deslumbrosa Ana de Armas que faz Joi, uma garota virtual, ele pode ao menos tocar nessa boneca.

Replicante e desconcertado por nunca conseguir fazer sexo com um bando de pixels embalado em pacote de machine learning, 'K' é um policial com o objetivo de perseguir seus iguais, os replicantes, robôs de carne que diferem dos seres humanos apenas por serem criados e melhores, e fazer cara de quem está apenas seguindo sua programação, sua triste, determinística e amoral programação. Então 'K' não se diverte no processo. Pelo contrário, ele sofre.

Diferente de seu predecessor, o agente Rick Deckard, que nas mãos de um limitado Harrison Ford ainda conseguiu criar uma ambiguidade de sentimentos e estados de humor digno de estudos e mais estudos ao que se seguiu à estreia de seu filme original. E ainda ficou com a garota. Um noir de final feliz com uma cena icônica debaixo da chuva. 2049 não cosegue isso e apenas piora tentando emular.

Junto do estereótipo 'K' de cara durão, robótico de bom coração temos outras figuras que transformam um filme pesado em uma continuação infantilizada. Como a personagem de Sylvia Hoeks, Luv, um robô com instinto de ser a melhor de seu tipo em todos os quesitos, e em ser malvadona e fazer o que seu chefe mandar, e o cartunesco Niander Wallace, nas mãos do exagerado e não-bom Jared Leto e seus olhos de cristal. Também temos Mackenzie Davis como uma prostituta esquiva, mas Davis difere do elenco por fazer um bom trabalho. Ela levou a sério seu papel, mas é um sério bom. O sério de Gosling passa longe.

Wanderley Caloni, 2022-01-11 18:56:00 -0300

reviews draft movies discuss