A Alça Dentro do Fio Gerou um Bloqueio da Morte
Caloni, 2008-10-21 essays blogEstava folheando um livro fenomenal que meu amigo havia pedido emprestado para ler quando me deparei com algumas traduções no mínimo curiosas. O exemplar em questão era o primeiro Windows Internals, publicado após o lançamento da primeira versão do Windows NT, uma plataforma escrita (quase) inteiramente do zero para suplantar as versões 9x (Windows 95 e 98), que herdaram do DOS algumas partes indesejáveis em sistemas operacionais modernos.
Sabe-se lá por que essa edição foi traduzida. É interessante notar que naquela época foi dado um tratamento especial a alguns termos e conceitos já comuns no dia-a-dia do programador americano, apesar de quase nenhum desses termos ter se mantido em sua versão original. Os exemplos mais gritantes são as threads (fios ou linhas), os dead locks (bloqueios da morte) e os handles (alças). Apesar de não ter nada contra traduzir termos do inglês para português (e vice-versa) algumas coisas incomodam em tradução de livros técnicos.
Um bom exemplo são ponteiros. Ler em um dado capítulo "(...) é muito importante inicializar seus ponteiros antes de usá-los" para, depois de nos acostumarmos com o termo, ler em outro capítulo "(...) sabe-se que a pior desgraça para um programador C são os famigerados apontadores selvagens". Você resolveria esse tipo de problema definindo um vocabulário em comum com todo o livro (importantíssimo se ele está sendo traduzido por mais de uma pessoa) e ainda informaria o leitor qual o termo original, caso ele precise pesquisar sobre ele fora do livro. Com essa informação, que pode ser usada apenas nos primeiros usos da palavra ou em um glossário à parte, agradaria gregos e troianos: "os ponteiros em C (pointers) são um recurso rico e necessário para a escrita de programas de baixo/médio nível".
Um exemplo notável é o famoso livro de algoritmos em C da O'Reilly, que mesmo na nova edição com uma errata de 49 itens foi possível detectar mais erros. Um exemplo que me lembro era de uma função do algoritmo bitree. Nele havia uma variável com o nome orig que três linhas abaixo estava "traduzida" para original. É importante aqui diferenciar que no original não consta esse erro da troca do nome da variável.
Isso acaba sendo pior do que não colocar a versão em inglês, pois dá a impressão que não existe significado a ser explicado. Por exemplo, ver antes do capítulo sobre threads a passagem "... quando um fio espera o outro e vice-versa, acontece o terrível bug da trava da morte". Para quem não descobriu o que foi escrito no original, se trata de duas threads (fios) causando um deadlock (trava da morte), cujo termo inclusive é usado no seu original na Wikipédia em português.
Esses exemplos, salvo o exemplo do livro de algoritmos, foram criados para ilustrar os tipos de erros mais comuns em traduções de livros técnicos, e não estão relacionados com qualquer livro em específico. Então o que era inicialmente para ajudar as pessoas que estão iniciando alguns conceitos acaba por prejudicar ainda mais o aprendizado, gerando aquele tipo de confusão que só com ajuda extra (internet, professor, colega) pode ser resolvida.
Assim como no vocabulário comum corrente, em que existem palavras dificilmente adaptáveis ou traduzíveis em um termo comum, como shopping e show, no meio técnico brotam as mais variadas expressões "estrangeirísticas". Algumas são muito difíceis de encontrar seu primo lusófono, como link e login. Outros, no entanto, exageram um pouco as coisas, a ponto de conjugarmos um verbo em inglês usando nosso sistema gramatical: se você "stopar" o "debugador" vai "crashear" todo o sistema, porque esse software tá "bugado"! (1)
O fato é que não há escapatória para quem trabalha nessa área, e no fundo isso é uma coisa boa, pois é da leitura técnica em inglês que podemos estender o nosso conhecimento além das barreiras do ponto com ponto br e encontrar conteúdo extremamente interessante (e inédito em nossa língua) para aprender. Se não estivéssemos abarrotados de estrangeirismos talvez fosse um pouco mais difícil fazer o switch entre essas duas linguagens.
(1) Ironicamente 12 anos depois deste artigo ser escrito o verbo bugar virou uma gíria corrente entre jovens.
2008-10-22 Daniel Quadros:
Na minha pequena experiência como autor e menor ainda como tradutor (somente 1 livro), eu diria que achar uma forma de colocar termos técnicos estrangeiros é uma coisa complicada e sem possibilidade de vitória... Me irrita muito o uso desnecessário do inglês quando existem termos equivalentes em português. "Aportuguesar" soa bem na hora de falar, mas fica estranho quando escrito (ressetar é com um s ou dois?). É também um processo contínuo, a cada ano uma expressão em português se consolida. Sobre os exemplos citados: "linha de execução" no lugar de thread até me soa poético, porém alça como tradução de handle me dá calafrios. Gabarito no lugar de template não é totalmente incorreto pois gabarito também pode ser usado para se referir a um modelo usado na produção/reprodução de alguma coisa.
Uma curiosidade: lá por volta de 1980 eu tive aula de eletrônica digital na Poli com o Prof Antonio Zuffo (o filho dele continua atuando na área e aparece na midia de vez em quando). Ele foi autor de um livro onde todas as siglas tradicionais (como RAM, ROM, CPU, etc) eram traduzidas. O nosso apelido para ele era Zovni!
2008-10-21 Sergio CBJ:
Infelizmente eu já li livros em que eles se davam o trabalho de traduzir até as siglas.
Mas esse "estrangeirismo" eu até gosto.. talvez eu esteja advogando em causa própria mas como você bem concluiu no final do post, eles ajudam muito a passar do portugues para o ingles gradativamente.
No entando, eu acho o portingles uma boa linguagem para blogs e artigos informais, mas para um livro que pretende manter a seriedade é outra história.
Bem, que atire a primeira pedra aquele que nunca falou "putz, essa droga bugo" ou "ta todo bugado" =P
2008-10-23 Sergio CBJ:
sabe, agora que me lembrei.. a um tempo atrás eu estava conversando com um amigo biólogo.. e ele estava me explicando a briga deles para dizer se um virus é ou não um ser vivo e como essa discussão não tem fim por ser uma discussão mais filosofal do que qualquer outra coisa.(eles discutem o que é a vida por si só para saber se um virus é ou não um ser vivo o0)
Na hora eu ri e pensei como é engraçado a forma como as ciencias que deveriam ser as mais exatas as vezes se baseiam em algo tão relativo quanto a opnião humana e pensei alto: "graças a deus que nos meus if's ou é TRUE ou é FALSE".
Mas aqui está uma discussão completamente voltada a opnião humana, já que traduzir ou não é questão de ponto de vista e ainda não desenvolveram nenhum standard para expressões que devem ou não ser traduzidas.Ou seja, a programação não é tão exata assim também. =/
2008-12-04 Victor Hugo:
Só um programador vindo do fefeléche pra fazer um artigo tão legal!
Parabéns, suas opniões são espelhos das minhas!
2008-10-21 ViniGodoy:
Aliás, algo que sempre me chamou atenção é que esses livros geralmente tem revisores técnicos! Sinceramente, erros tão grotescos podem passar se gente da área ajuda na tradução?
Também faltou citar o interessantístimo "gabarito" (template) na tradução do não menos clássico livro do Stroustrup. Mas tenho que admitir que o livro "Padrões de Projeto" foi muito bem traduzido. Um viva para o tradutor e para os revisores, que resolveram manter o nome dos padrões em inglês.
2008-10-21 Caloni:
Olá, Sergio.
De fato, no meu dia-a-dia proclamo e reclamo sobre tudo em inglês, gastando todos os termos possíveis e imagináveis. Nem parece uma afirmação de alguém que tenta zelar pelo excesso de estrangeirismos nos artigos deste humilde blogue =)
[]s
2008-10-23 Caloni:
É, meu caro, Sergio, quando a coisa cai no campo das línguas humanas, as coisas ficam menos lógicas; porém, mais ricas!
[]s