A Origem (Christopher Nolan, 2010)
Caloni, 2010-08-06 cinema movies blogO diretor e roteirista Christopher Nolan tem o dom de traduzir para o espectador as experiências de seus personagens na tela. Vimos isso em Amnésia com a montagem invertida fazendo o papel do protagonista que não consegue se lembrar o que estava fazendo cinco minutos atrás. Em O Grande Truque as trucagens do roteiro são tão ágeis que se assemelham a um número de mágica bem conduzido. E agora em A Origem participamos de um exercício narrativo que consegue unir todas as ideias modernas a respeito dos sonhos, mas que ao mesmo tempo se deixa levar pela metalinguagem e faz uma sutil homenagem ao próprio Cinema.
A história gira em torno de Cobb (Leonardo DiCaprio), um espião que rouba informações sigilosas das pessoas diretamente em seus subconscientes através de uma nova tecnologia que permite o compartilhamento dos sonhos. Até que ele recebe a proposta de fazer exatamente o oposto: inserir uma ideia dentro do consciente da pessoa, algo muito mais difícil de se fazer e que exige adentrar em camadas mais inferiores ainda do ser. Esse "último trabalho" traria de volta sua família, pois ele conseguiria voltar para o país onde estão os seus filhos. No entanto, o fantasma das memórias de sua mulher morta serão um problema constante no decorrer da missão.
A edição do filme brinca de uma maneira absolutamente controladora. Os pulos entre os sonhos são efetuados com uma precisão milimétrica, entregando ritmo e uma nova forma de ação: a multicamadas. Há uma sequência particularmente fascinante, no momento em que uma Van capota com todos seus passageiros dormindo. Uma viagem psicodélica em torno da noção de gravidade embutida no subconsciente.
Além disso, A Origem também é um pouco de filosofia. A questão que tortura a mulher de Cobb não é fruto apenas de uma mente perturbada, mas de argumentos de alguém com história de vida e que que se sentiu presa a uma realidade infértil por décadas a fio, o que acabou se tornando fatal para ambos. E sejamos justos: no universo que o filme retrata, pensar que toda a realidade pode ser um sonho não parece tão disparate assim.
É por isso que os personagens trágicos de A Origem acabam emprestando um pouco do Cinema noir, pois seus futuros são sombrios graças ao passado sem volta. O tal do paradoxo espacial explorado pelos arquitetos de sonhos possui uma rima em sua própria estrutura, onde as coisas funcionam em nossa mente, conforme vemos a equipe se deparando com diversos desafios, cada um em sua camada de sonho. É dentro desse embate psicológico que reside a tensão de um filme que possui uma ação muito particular, e que provavelmente se revisto de tempos em tempos, irá se mostrar muito mais rico do que um mero filme de ação.