Superman: O Filme
2010-08-12 cinema movies blog
Cercado de evocações épicas em seus quadros, no tom solene da partida de Krypton (protagonizada por ninguém menos que Marlon Brando) e até mesmo na fotografia dos diversos ambientes em que vemos o personagem-título, o fato é que Superman: O Filme funciona bem exatamente pelo conjunto da obra. Amparado por convincentes e uníssonas interpretações, representa um mundo fantasioso vivido pelo homem de aço, não soa piegas ou exagerado como fosse de se supor, mas exala um certo tom cartunesco que soa correto ao material original, mantendo uma lenda épica dos quadrinhos ciente que não se pode levar a sério demais.
Ambientado na época "contemporânea", acompanhamos através de diversos momentos-chave a infância e adolescência do herói até atingir a maturidade e conseguir um emprego de repórter no jornal Planeta Diário, da cidade grande Metrópolis. Seu nome humano é Clark Kent (Christopher Reeve), e ele possui uma queda por uma repórter efusiva, Louis Lane (Margot Kidder), que caça grandes notícias, mas não enxerga um palmo diante do seu nariz, onde o agora conhecido super-herói da cidade se mantém disfarçado apenas pelos seus óculos e um jeito atrapalhado que contracena com toda a pose e atitude de Kar-El.
Seu vilão, o igualmente equilibrado (ou deveria dizer desequilibrado?) Lex Luthor (Gene Hackman), oscila confortavelmente entre o picaretagem e a megalomania. Seu plano maligno é obter um pedaço de terra do tamanho da Califórnia e ficar milionário às custas da morte de milhões. A conversa com Superman adquire tons de cavalheirismo desconhecidos ainda do Kryptoniano, que parece querer desvendar o que há por trás da loucura de alguns humanos.
A solução do conflito toma um contorno totalmente diferente do imaginado, o que é ótimo. Os sentimentos de Superman são pessoais, mas indiretamente ele acaba por firmar um pacto com os seres humanos e o seu destino. Uma bela mensagem de esperança sem soar religioso ou filosófico demais. No entanto, há algo de divino na interpretação de Reeve que ecoará para sempre na figura do carismático personagem.
Eu concordaria com qualquer pessoa que dissesse que Superman é um filme complicado de defender no momento atual em que o cinema e seus efeitos visuais primorosos (ainda que muitas vezes tão somente os efeitos) são difíceis de conciliar neste humor cartunesco, romântico e épico em torno de um ser que veste suas cuecas por cima das calças.
Porém, peço aos leitores que olhem mais de perto. O que hoje tornaria um filme propenso ao fracasso e mediocridade na época o transforma em uma obra digna e ciente de si e de seu herói, que abraça o ridículo de maneira tão empolgante e solene como se o ridículo não estivesse lá. É sua paixão que faz com que essa experiência cinematográfica ainda seja citada e comparada a filmes tecnicamente superiores, mas ainda carentes dessa paixão incondicional, como "Superman: O Retorno" e O Homem de Aço.
Não há dúvidas que o tema composto por John Williams transforma qualquer cena com potencial vergonhoso em um clássico instantâneo. Porém, "Superman Returns" possui a mesma canção solene, mas perdeu algo durante a transição dos séculos, comprovando o êxito do primeiro filme não ser unicamente fruto de sua trilha sonora.
Olhe atentamente para Clark Kent e me diga o seguinte: mesmo sabendo que ele é o Homem de Aço com óculos, é apenas isso que o separa do ser alienígena? Os ombros arqueados, o tique de sempre estar empurrando os aros, a voz fina que mal consegue balbuciar uma frase sem ser interrompido. O esforço da interpretação não fica só no tom solene ao vestir aquelas roupas coloridas. Há um personagem interpretando outro em Superman, e é isso que Chris Reeve faz com uma desenvoltura que faz parecer fácil (como sua atuação dentro da atuação em se espremer ao tentar abrir uma garrafa de suco de laranja).
Em contraparte, não há como negar os esforços do diretor Richard Donner em tentar tornar as cenas de voo (a chamada principal para o filme na época era "Você vai acreditar que o homem pode voar") e torná-las leves e poéticas. É um marco nos efeitos visuais, mesmo hoje tendo sido ultrapassado. Já a lenda, essa parece que está longe de o ser.