Blue Jay

Antes eles imitavam o futuro. Hoje eles se reencontram e retornam ao passado. Um filme inteiro em preto e branco porque é sobre memórias. A beleza dos tons de cinza de um filme invocam a poesia da realidade. Porém, no paradoxo mais charmoso do Cinema, o p&b também torna a vida mais real.

E para garantir isso o diretor e fotógrafo Alexandre Lehmann escolhe a natureza morta de uma cidadezinha decadente, apresentando o retorno de uma ex-moradora com toda a imersão saudosista que ela ardentemente precisa. Ela encontra o ex-namorado da adolescência no mercado local, e a partir daí uma série de eventos vai fazer com que os dois relembrem seu passado e se envolvam em diálogos não tão inspirados quanto a Trilogia do Amanhecer, mas muito mais simbólicos.

Sarah Paulson a princípio não soa como uma boa atriz para o papel. Muito inerte em seus trejeitos melodramáticos, ela tira isso da frente em algum momento da história e acaba pertencendo mais ao mundo que o filme representa.

Esse mundo de contar histórias. De nós, espectadores da vida real, contarmos histórias para nós mesmos, de como seria, de como vai ser, de como era. Uma realidade alternativa apaixonante, que encontra reflexo na própria nostalgia de quem assiste e sabe como é pensar nos contornos que a vida dá.

O roteiro de Mark Duplass, que faz o personagem Jim, é sutil demais, natural demais. Ele tropeça no naturalismo, usando falas tão realistas que soam amadoras. Ele pergunta se está tudo bem duas vezes seguida. Sua atuação não está à altura do seu próprio roteiro, mas com certeza está a caracterização de alguém que está passando por maus bocados. Ele é autêntico, e assim como Paulson retira a persona teatral que poderia surgir em um filme sobre duas pessoas dialogando, e tenta dialogar como a própria personagem desta história, Duplass acerta ao retratar seu Jim como intimista, melancólico e, lá no fundo, esperançoso.

Este é um filme para quem tem paciência para o Cinema. Encontramos pouco movimento na ação em si. O suficiente para que essas duas pessoas revivam o que antes era a realidade de um futuro juntos, e hoje se torna um sonho que nunca foi concretizado.

E quantos de nós tem algum desses guardado em nossas gavetas? É depressivo quem vive para o passado, mas gastar uma hora e meia em uma ficção que aborda o tema é fascinante.

Wanderley Caloni, 2016-12-10 00:00:00 +0000

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