Cega Obsessão

Wanderley Caloni, 2019-09-07.

Houve nas décadas de 50 e 60 dois grandes e importantes movimentos no cinema mundial que chacoalharam as estruturas do que poderia ser mostrado na tela: o nouvelle vague francês e as pornochanchadas brasileiras. A união desses dois mundos no japão gerou filmes de horror eróticos reciclados do autor Edogawa Ranpo (1894-1965) e seus mistérios de ficção que lidavam com o bizarro.

Pode ser uma supresa para muitos que a cultura japonesa tenha iniciado um movimento completamente atordoante, seja no campo do horror psicológico quanto da erotização. E Cega Obsessão é um exemplo perfeito disso. Unindo uma versão de tragédia edipiada, contracultura, erotismo e gore, Môjû é ainda uma produção de baixo orçamento que conseguirá te deixar pensando em sua história por alguns dias, meses e anos.

Tudo começa com um escultor cego que fica obcecado pela beleza das formas e da textura do corpo de uma modelo fotográfica. Ele a sequestra e tem início um pesadelo para os dois. No início tudo leva a crer que iremos assistir a um mero thriller erótico, mas conforme a história avança mais elementos são acrescentados, como a questão do ciúme da mãe do escultor, que vai elevando a complexidade do simbolismo do que está literalmente ocorrendo.

Yasuzô Masumura fez curso na mesma escola na Itália de Claudia Cardinale e Michelangelo Antonioni. Retornando ao Japão, foi assistente de direção de Kenji Mizoguchi. Mizoguchi durante a infância presenciou problemas financeiros na família que culminaram em seu pai vendendo sua irmã como gueixa, algo que perturbou o futuro diretor pelo resto de sua vida. Iniciando a carreira influenciado pelo expressionismo alemão, Mizoguchi confiava plenamente na direção dos atores por Masumura, que acumulou assim experiência antes de iniciar ele próprio na direção.

Cega Obsessão é daqueles filmes que começa de um jeito, mas vai se desenvolvendo de uma forma que não se espera. Há mudanças nos personagens que podem soar forçadas, mas o resultado é tão impactante que as incoerências deixam de ter importância. Nesse sentido seu roteiro é convenientemente experimental, ajudando o cineasta a atingir uma linha artística de exploração humana que dificilmente conseguiria ser feito em menos de uma hora e meia.

A estrela deste filme é a atriz Mako Midori, que se entrega de corpo e alma ao projeto, embarcando em uma personagem que se chamarmos de controversa parecerá um eufemismo. Aki, a modelo fotográfica que estava satisfeita em posar como a idealização da mulher nos anos 60, adentra em um ritual de emoções cada vez mais primitivas, onde a definição da vida cerebral precisa passar necessariamente pela dor e pelo prazer. Midori comenta que próximo do final das filmagens já estava gostando do ritual sadomasoquista que vai evoluindo no terceiro ato, e nós vemos isso em sua interpretação da maneira mais pura.

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