Central do Brasil

2020-04-05 · 2 · 417

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Eu acho que não gosto muito desses filmes de retomada. Prefiro as pornochanchadas, mais honestas, menos desconexas com a realidade. Esse filme estilizado ainda mantém um pé muito forte no “cinematográfico” de Hollywood, mas não apara as arestas de uma cópia do que considera ser cinematográfico.

Seu diretor, Walter Salles, brilha nas paisagens, na mise en scene panorâmica, como pode se ver em Na Estrada, tantos anos depois. Já para caracterizar seus personagens, Salles patina feio, é ausente, e seu elenco está tão livre que é como se seus personagens não existissem, fossem borrões teatrais ou novelescos. Ao mimar seu elenco ele rouba do filme a possibilidade de atuações marcantes.

Vendeu-se muito bem esse filme para o Oscar, ganhando uma indicação até de atriz para Fernanda Montenegro. Ele tem um quê de continuação de Pixote: A Lei do Mais Fraco. Tanto que tem a inesquecível Marília Pêra em atuação periférica.

A trilha sonora, principalmente a música tema, nos embala como em um road movie nacional. Este filme quer apresentar o Brasil para o mundo e não esconde de ninguém seu projeto. Aliás, ele tenta insistentemente e desesperadamente, usando a personagem de Montenegro, colocando uma maquiagem indigesta em seu rosto. Montenegro é a atriz que representa a dramaturgia nacional, e para um brasileiro vê-la em uma novela glamurizada é vergonha alheia demais. Para uma elite socialista talvez seja aceitável, ver um fio de esperança de sair do complexo de vira-lata enaltecendo a miséria inerente do espírito nacional.

Os dois personagens principais dessa história não são flor que se cheire. Ela é uma ex-professora primária que se aproveita das pessoas que não sabem ler. Ele é um garoto arrogante criado por uma mãe condescendente e pai ausente, uma realidade legitimamente nacional.

A religião do filme precisa envolver o sincretismo, mas soa passagem obrigatória no itinerário sertão do país. No momento que eles pegam carona no caminhão de pessoas de branco a imprevisibilidade some, a propaganda fica no lugar.

Mas o trabalho de Salles se beneficia do momento que o cinema local desperta e estamos em busca de aprovação externa. Um conselho usa um filtro ideológico que aprove, financie e divulgue trabalhos socialmente compatíveis com o projeto da nova democracia. O filme vai revelando suas ambições conforme estamos cada vez mais no interior do país. A Central do Brasil não é a estação do Rio, mas um lugar idílico e mental habitado por professores de história tão arrogantes quanto um garoto de nove anos que sabe tudo sobre a vida.

Central Station (Brazil, France, 1998). Dirigido por Walter Salles. Escrito por Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles. Com Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Vinícius de Oliveira, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·